Um homem chamado Job

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Um homem chamado Job / 17  - No poema da vida, a primeira e a última hora são sempre dom

de Luigino Bruni

Publicado no Avvenire em 05/07/2015

logo Giobbe

Sou eu, em Job, que canto; é o homem que existe e, se se quiser, é o próprio homem que pode ver através deste livro – o mais seu – para encontrar a luz que vai procurando. Porque, depois de Job, acerca do problema da nossa vida, por parte do homem, de novo não se disse mais nada.

David Maria Turoldo, De uma casa de lama – Job

Era uma vez, um homem chamado Job, com muitos bens, filhos e filhas, abençoado por Deus e pelos homens. Um dia, uma terrível desgraça se abate sobre ele e a sua família, e aquele homem aceitou, com paciência, o seu destino desventurado: “Saí nu do ventre de minha mãe e nu hei-de voltar ao seio da terra”. Amigos e parentes, sabendo da sua desgraça e conhecendo a sua justiça, vieram junto dele para celebrar o luto, consolá-lo e ajudá-lo.

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Porém, no fim, foi o próprio Deus a intervir em seu favor, devolvendo-lhe o dobro de quanto tinha perdido, dado que Job se mostrou fiel e reto durante a prova. Era esta, ou algo de parecido, a primeira narrativa de Job, conhecida no Próximo Oriente e na terra de Israel. O autor do Livro de Job partiu desta história. Conservou-lhe os materiais e, com eles, escreveu o Prólogo (Cap.s 1-2) e o Epílogo: «O SENHOR restabeleceu a antiga condição de Job e deu-lhe de novo os seus bens (…) Chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e burras. Teve também sete filhos e três filhas. A uma chamou Jemima; a outra, Quessia e à terceira, Queren-Hapuc. No mundo inteiro não havia mulheres mais belas do que as filhas de Job» (42, 10-15).

Porém, quando o autor se pôs a compor o seu poema, a antiga narrativa torna-se algo muito diferente. Nasceram os maravilhosos cantos de Job, os diálogos com os amigos, e até as palavras de Eliú e as de Deus. E encontrou-se com uma obra que conservava muito pouco da originária e fascinante narrativa. Job mostra-se nada paciente: tinha protestado e gritado contra Deus e a vida. Os amigos, de consoladores tornam-se torturadores e advogados de um Deus banal. E o próprio Deus, quando, finalmente, entra em cena, desilude: não consegue consolar Job nem responder às suas perguntas. A antiga narrativa tornou-se o recipiente de uma verdadeira revolução teológica e antropológica e de uma autêntica obra-prima literária.

Por isso, quando chegamos ao fim do livro, ao Epílogo, ficamos espantados ao ler: «Depois de o SENHOR ter dito estas coisas a Job, disse também a Elifaz de Teman: “Estou muito irado contigo e com os teus dois companheiros, porque não falaram de mim com retidão, como o fez o meu servo Job”» (42, 7-8). Aqui, Deus torna-se juiz entre Job e os seus “amigos”, num processo que Job ganha, mas que não tinha pedido nem desejado (ele tinha processado Elohim, não os amigos). E, assim, Job, antes repreendido e silenciado por Deus omnipotente, torna-se, agora, improvisadamente, “o seu servo”, o único que disse coisas “retas”. Nenhuma referência à doença de Job, à sua rebelião, à aposta com Satã.

Encontramo-nos, evidentemente, perante materiais provenientes de tradições diferentes, mas temos de tentar, também esta última vez, uma interpretação. Certamente, também aqui podemos resolver facilmente o problema dizendo que o Epílogo foi acrescentado por um tardio redator final, talvez o mesmo que acrescentou o Prólogo. São muitos, de facto, a propor esta solução. Mas nem todos. Pelo contrário, alguns pensam que tenha sido o próprio autor do grande poema de Job a querer abandonar os materiais da antiga narrativa, como os construtores das primeiras igrejas cristãs, que utilizaram as pedras e as colunas, por vezes também elementos exteriores, dos precedentes templos romanos e gregos. E assim, incorporados na sua catedral, o antigo autor deixou passar também magníficas colunas e maravilhosos capiteis. Mas aqueles antigos materiais, juntamente à sua beleza, deixaram em herança também algum vínculo arquitetónico e estilístico a mais.

Quem escreve partindo de outras histórias, recebidas como presente (e todo o escritor faz isso; poderiam ser só narrativas e poesias a alimentarem-no: toda a palavra escrita é, antes, palavra recebida), sabe que, querendo que aquele presente frutifique, deve respeitá-lo. Não o pode usar apenas para a sua própria construção, sem obedecer ao “espirito” que aquela história lhe deu, incluído no próprio presente. Está aqui, também, o contínuo e essencial exercício de verdade e de gratuidade a que é chamado quem não tem o objetivo do lucro, mas para servir do daimon que o habita, e que nele habita a terra. Todas as histórias, mesmo as maiores, nascem sobre colunas erguidas por outros.

«Depois disto, Job viveu ainda cento e quarenta anos e viu os seus filhos e netos e os seus descendentes até à quarta geração e morreu em idade avançada, feliz dos anos que tinha vivido» (42, 16-17). É este o último versículo do Livro de Job. As histórias têm uma profunda, quase invencível, necessidade de um fim feliz. A procura de justiça, o desejo de ver, no fim, triunfar o bem e os humildes exaltados, estão muito radicados e radicais em nós e no mundo, para nos podermos contentar com dramas e relatos que terminem com os “porquês” do penúltimo capítulo.

Nós sabemos, porém, que os Jobs da história não morrem como os patriarcas “em idade avançada, feliz dos anos”. Os Job vivos morrem muito cedo; por vezes, nem sequer chegam a adultos; não lhes são restituídos bens e filhos (também porque nenhum filho pode ser substituído pelo dom de um outro filho), a saúde perde-se para sempre, as feridas não são curadas, os poderosos têm sempre razão, Deus não responde, a sua desventura nunca acaba, o seu grito não se acalma. Mas, muito radicalmente, os filhos e os bens que a vida nos dá não existem para sempre, a boa saúde, mais tarde ou mais cedo, acaba, e se temos o dom de ver face a face o anjo da morte, quase sempre expiramos com um “porquê” que, se pronunciado com um “ámen” ou até mesmo com um “obrigado”, acalma-se, mas não desaparece.

Então, enquanto lemos este Epílogo, que chegou como um presente de uma pérola antiga, não devemos esquecer o canto de Job e, também, graças a ele, o canto-grito de tantos Job que não conhecem nem seriam ajudados por este último capítulo – que nos introduz na teologia retributiva dos “amigos” de Job. E, depois, não terminemos o livro com a leitura do capítulo 42. Recuemos à oração à terra («Ó terra, não escondas o meu sangue e não haja sepultura para o meu grito»: 16, 18), à disputa de Job com Deus («Mas deve haver, no céu, uma testemunha que seja por mim, (…) que servirá de árbitro entre o homem e Deus, como acontece em questões entre os homens»: 16, 19-21), aos seus protestos desesperados («Gritei por ti e não me respondeste, apresentei-me e não fizeste caso de mim»: 30, 20). São estas as palavras com que podemos e devemos rezar, mesmo aqueles que rezam apenas para pedir que o céu não fique vazio. O Job amigo dos homens, solidário com cada criatura e com cada vítima, é o que se afirma um pouco antes do Epílogo. É este o caminho de toda a verdadeira solidariedade humana, a que parte da desventura e termina na desventura, e que se surpreende com o desventurado, se e quando chega ao paraíso, na terra ou no céu. O paraíso é sempre um capítulo oferecido, o que nenhum livro pode descrever-nos, nem sequer os imensos livros da Bíblia porque, se estivesse já descrito, não teríamos ainda saído do livro e entrado no mistério da nossa vida, que é vida precisamente porque os últimos capítulos podem ser apenas os penúltimos.

Mas talvez haja uma outra mensagem escondida neste Epílogo oferecido. Não somos nós os escritores do nosso final. Não somos nós os criadores das auroras e dos ocasos mais belos da nossa vida, porque, se fossem nossas criaturas, não nos surpreenderiam, não seriam maravilhosos como o primeiro enamoramento ou como o último olhar da nossa esposa. Como nos contos mais belos, onde a verdadeira conclusão é a não escrita e que cada leitor tem o direito e o dever de escrever (os romances eternos são os in-finitos). Também nós viemos ao mundo dentro dum horizonte que nos acolhe e que modela a paisagem onde iremos morar. Escrevemos o poema da nossa vida, mas o prólogo e o epílogo são-nos dados, e a obra-prima nasce quando somos capazes de inscrever o nosso canto dentro duma sinfonia mais antiga e maior. Podemos e devemos escrever as muitas horas do nosso dia, mas a primeira e a última são dom – e, talvez por isso, as mais verdadeiras.

Foi difícil começar Job e, agora, é mais difícil deixá-lo. Desejar-se-ia ficar, tão admirável é a paisagem que se comtempla do alto aonde nos conduziu, tomando-nos pela mão no caminho. Obrigado ao antigo autor, sem nome. Obrigado por todo o teu livro. Mas, sobretudo, obrigado por Job. O comentário do Génesis foi uma grande aventura do coração e do espírito. O Êxodo foi a descoberta da força da voz de YHWH na terra e da voz dos profetas, que não são falsos profetas se libertam os escravos e os pobres. Mas Job foi a descoberta mais inesperada, o dom maior que recebi desde que escrevo. Obrigado a quem me seguiu – durante todo o caminho ou por um pedaço. Muitos comentários que recebi entraram na reflexão; muitas palavras se tornaram as minhas palavras. Destes grandes textos se pode falar apenas em conjunto, cantando-os em coro.

Era uma vez um homem chamado Job. Porém, o Deus que Job procurava, esperava, amava, não chegou. Os inocentes continuam a morrer, as crianças a sofrer, a dor dos pobres a ser a maior que a terra conhece. Job ensinou-nos que se há um Deus da vida, deve ser o Deus do não-ainda. E que, por isso, pode chegar a qualquer momento, quando menos o esperamos, deixando-nos sem fôlego. Vem!

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de Luigino Bruni

Publicado no Avvenire em 05/07/2015

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Sou eu, em Job, que canto; é o homem que existe e, se se quiser, é o próprio homem que pode ver através deste livro – o mais seu – para encontrar a luz que vai procurando. Porque, depois de Job, acerca do problema da nossa vida, por parte do homem, de novo não se disse mais nada.

David Maria Turoldo, De uma casa de lama – Job

Era uma vez, um homem chamado Job, com muitos bens, filhos e filhas, abençoado por Deus e pelos homens. Um dia, uma terrível desgraça se abate sobre ele e a sua família, e aquele homem aceitou, com paciência, o seu destino desventurado: “Saí nu do ventre de minha mãe e nu hei-de voltar ao seio da terra”. Amigos e parentes, sabendo da sua desgraça e conhecendo a sua justiça, vieram junto dele para celebrar o luto, consolá-lo e ajudá-lo.

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O cântico que não pode acabar

Um homem chamado Job / 17  - No poema da vida, a primeira e a última hora são sempre dom de Luigino Bruni Publicado no Avvenire em 05/07/2015 Sou eu, em Job, que canto; é o homem que existe e, se se quiser, é o próprio homem que pode ver através deste livro – o mais seu – para encont...
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Um homem chamado Job/16 - Enquanto formos capazes de fazer perguntas, somos livres, também com Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 28/06/2015

logo GiobbeVoltei a Job, porque não posso viver sem ele, porque sinto que o meu tempo, como qualquer tempo, é o de Job; e que, se isto não acontece, é apenas por inconsciência ou ilusão.

David Maria Turoldo, De uma casa de barro – Job

Frequentemente, os pobres são privados da dignidade de se interrogar sobre o porquê da sua pobreza. Convencemo-los de que o erro não está na nossa falta de respostas, mas nas suas perguntas erradas, impertinentes, soberbas, pecaminosas. A ideologia das classes dominantes persuade as vítimas que pedir explicações sobre a sua miséria e sobre a riqueza dos outros é ilícito, imoral, até mesmo irreligioso.

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Quando os pobres, ou quem lhes dá voz, deixam de colocar a si próprios, aos outros e a Deus, as perguntas mais verdadeiras e radicais, que nascem da sua condição objetiva e concreta, e se calam ou formulam perguntas mais gentis e inócuas, a sua escravidão começa a tornar-se irreversível. Podemos sempre esperar libertar-nos a nós mesmos ou alguém de uma “armadilha da pobreza” material, moral, relacional, enquanto continuarmos e perguntar-nos e a perguntar: “Porquê?”

Depois de Elohim, de dentro da tempestade, ter descrito magnificamente animais e monstros marinhos, silenciando-o com o espetáculo da sua omnisciência e omnipresença, «Job respondeu ao Senhor e disse: “Sei que podes tudo e que nada te é impossível. Quem é que obscurece assim o desígnio divino, com palavras sem sentido? De facto, eu falei de coisas que não entendia, de maravilhas que superavam o meu saber» (42, 1-3).

Como interpretar estas palavras? Deus não lhe disse nada sobre o porquê do sofrimento injusto dos inocentes e sobre o bem-estar enganoso dos maus, que eram as verdadeiras perguntas para as quais Job esperava respostas durante o seu processo incrível com Deus. Procurava uma nova justiça e Elohim respondeu-lhe com um discurso abstrato, muito parecido aos dos seus “amigos” que o tinham humilhado e feito sofrer em toda a primeira parte do seu livro. Então, como é possível, no termo da sua infinita espera, Job sentir satisfeita a sua fome e sede de justiça pelas não-respostas de Elohim, e admita mesmo ter feito as perguntas erradas («eu falei de coisas que não entendia»)? Não: este Job não pode ser o que conhecemos, a lutar como um leão, na sua querela com Deus. Como e onde podemos encontrar uma coerência entre o primeiro e o último Job?

De vez em quando, na vida dos escritores, sucede algo de sublime, quando o personagem do livro se torna maior que o autor que lhe está a dar vida. Escapa-se-lhe da mão, começa a viver uma vida própria, a crescer até chegar a pronunciar palavras e a descobrir verdades que o próprio autor não pensava nem conhecia. O autor torna-se aprendiz do seu personagem. Este verdadeiro êxtase verifica-se em toda a obra literária – e se um escritor nunca fez esta experiência, fechou-se simplesmente na antecâmara da literatura –, mas nos autores verdadeiramente grandes, a transcendência do escritor nos seus personagens produz obras-primas.

Porém, é necessário que o autor tenha a força espiritual de morrer muitas vezes para renascer, de cada vez, de modo diferente, e de resistir muito tempo sem ceder à tentação de possuir e controlar as suas “criaturas”, impedindo-as de crescer na sua liberdade e diversidade. São estas experiências literárias (e artísticas, em geral) que tornam a verdadeira literatura e a arte não ficção, mas descoberta do real mais verdadeiro. Se não fosse assim, os romances e os contos seriam apenas projeção dos seus autores, escritura do que já existia. Pelo contrário, é graças a esta capacidade transcendente dos escritores – que é, sobretudo, charis, dom – que Edmound Dantes, Fra Cristoforo, Zosima, Pietro Spina, Katjuša Maslova, são mais reais e verdadeiros que pessoas que encontramos dentro de casa, amam-nos mais que os nossos amigos, que as nossas mães, que os nossos filhos. Os escritores tornam o mundo mais belo, enchendo-o de criaturas verdadeiras, maiores que eles.

Creio que àquele escritor longínquo, anónimo, do livro de Job, tenha acontecido algo do género. E, assim, nasceu a obra-prima, talvez a maior de toda a Bíblia. Quando o antigo escritor deste livro – ou talvez, não o podemos saber, uma comunidade de sábios – iniciou o seu poema, não podia saber que Job chegaria a dirigir a Deus e à vida aquelas perguntas tão radicais e revolucionárias. Job cresceu muitíssimo, ao longo do seu drama e a grandeza moral do seu grito superou de longe a teologia e a sabedoria do seu autor. Assim, aquele escritor, depois de ter seguido Job sobre os cumes dos seus picos mais altos, depois de o ter feito falar mesmo quando dizia coisas e punha perguntas que ele próprio não compreendia nem teria ousado pensar e escrever, talvez tenha feito a experiência real de já não ter à disposição um Deus (uma teologia) capaz de dialogar verdadeiramente com aquele Job. Elohim não tinha crescido ao longo do seu poema – também porque o crescimento de Deus, nesta terra, pode acontecer apenas juntamente ao crescimento dos homens. E, assim, quando teve de, finalmente, dar a palavra a Deus, sentiu a enorme disparidade entre um Job que cresceu durante todo o livro e um Deus que permaneceu fechado dentro de si. Por isso, é plausível e fascinante pensar – com alguns exegetas – que o primeiro esquema do livro terminaria no capítulo 31 (“Aqui terminam as palavras de Job” – 40b), sem Eliú e sem nenhuma resposta de Elohim.

Mas podemos tentar atribuir ao mesmo autor também estes últimos capítulos difíceis e incómodos, ousando uma outra interpretação, cuja chave de leitura está contida no Prólogo do livro (1-2), na aposta entre Satã e Elohim sobre a natureza da justiça de Job. O livro abre-se com Satã que desafia Deus a pôr Job à prova, para verificar se ele era justo por interesse ou por puro amor gratuito a Deus se, perante a destruição de todos os seus bens e da sua pele, deixaria de bendizer a Deus, maldizendo-o.

Job começa a sua prova, resiste até ao fim, agarrado a uma única esperança: poder ver comparecer Deus no banco dos réus. No fim do seu cântico e da sua prova, Deus entra em cena: mas não se senta na sala do tribunal, não responde às perguntas de Job e silencia-o com a sua omnipotência.

É, talvez, neste momento, que Job chega ao auge da sua prova. Em nome do seu Deus-do-não-ainda esperado e que não tinha aparecido, Job podia condenar e maldizer esse Deus que tinha chegado. E Satã teria vencido o desafio. Porém, Job, mesmo não encontrando o Deus que esperava, continuou a bendizer a Deus: “Escuta-me, deixa-me falar! Vou interrogar-te e Tu me responderás”. Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos. Por isso, retracto-me e faço penitência, cobrindo-me de pó e de cinza (42, 4-6).
Job supera a última tentação e Deus vence a sua aposta contra Satã. Não amaldiçoa o Deus que não respondeu às suas perguntas, que não se lhe mostrou capaz de tomar verdadeiramente a sério os porquês mais difíceis e mais verdadeiros do homem e dos pobres inocentes. Job “vê”, finalmente, Deus, mas, na realidade, revê o Deus que já tinha conhecido na juventude, não vê o rosto novo e diferente que tinha desejado. O Goel, o fiador a quem, desesperadamente, tinha rezado, não chegou; Deus não mostrou um outro rosto, ainda desconhecido.

Mas, agora, Job não se revolta mais e acalma-se. Enquanto estava ainda no tempo da espera, quando se podia ou devia pedir tudo, na esperança que chegasse um Deus diferente, poderia protestar e praguejar, sem amaldiçoar Deus. E fê-lo. Agora, que o tempo de espera terminou e Deus falou: se Job tivesse continuado o seu protesto, este tornar-se-ia, necessariamente, blasfêmia. Apenas um Deus que ainda não se tinha revelado podia acolher os gritos profanadores de Job, não o Deus que, finalmente, chegou. Se Job tivesse repetido, ao Deus chegado, as denúncias e as acusações que tinha dirigido ao Deus-esperado, estas teriam sido apenas maldição.
Job falava e gritava para um Deus, para além de Elohim e, não tendo chegado, encontrou-se frente a uma única escolha dramática: maldição ou rendição incondicional. E escolhe a rendição.

Há, na vida, momentos decisivos, quando o cruzamento “maldição-rendição” se apresenta com toda a sua crueza. Para muitos, a morte chega sob a forma deste cruzamento dramático. Quando, depois de ter lutado longamente, empregue todas as energias próprias, da família, da medicina, chega, finalmente, o dia em que compreendemos que nos resta apenas uma última escolha, entre as duas únicas possibilidades: a sugerida pela mulher de Job (“Amaldiçoa Deus e morre de uma vez”: 2, 9) ou a rendição dócil. E, ainda nesta última escolha, é muito provável que o anjo de Deus que vem não seja o que esperávamos, que a vida que está a acabar não tenha respondido às grandes perguntas que fizemos desde o dia dos primeiros porquês da infância. E, também naquela hora, temos de decidir se morrer bendizendo e mansos ou maldizendo e irritados.

Mas o cruzamento entre a rendição e a maldição põe-nos também, pontualmente, perante as relações importantes da nossa vida, quando perante a desilusão de um filho ou de um amigo que nos dá respostas abaixo das que esperávamos e que nos devia dar, em vez de o amaldiçoar e perder, escolhemos render-nos e abençoá-lo como ele nos aparece, aceitando aquela desilusão para salvar a fé-confiança naquela relação. E, talvez, a partir daquele momento, o nosso “personagem” pode começar a surpreender-nos.

Jacob recebe a bênção do anjo de Elohim juntamente com a ferida da anca, no grande combate no leito de Jaboc (Génesis 32). Job, no vau do seu rio de sofrimento, é ferido por Elohim, mas é ele a abençoá-lo. E, graças a Job, e ao autor do seu livro, a terra e o céu encontram-se numa nova reciprocidade, onde também Elohim se pode revelar necessitado da nossa bênção.

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Um homem chamado Job/16 - Enquanto formos capazes de fazer perguntas, somos livres, também com Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 28/06/2015

logo GiobbeVoltei a Job, porque não posso viver sem ele, porque sinto que o meu tempo, como qualquer tempo, é o de Job; e que, se isto não acontece, é apenas por inconsciência ou ilusão.

David Maria Turoldo, De uma casa de barro – Job

Frequentemente, os pobres são privados da dignidade de se interrogar sobre o porquê da sua pobreza. Convencemo-los de que o erro não está na nossa falta de respostas, mas nas suas perguntas erradas, impertinentes, soberbas, pecaminosas. A ideologia das classes dominantes persuade as vítimas que pedir explicações sobre a sua miséria e sobre a riqueza dos outros é ilícito, imoral, até mesmo irreligioso.

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No encontro não há maldição

Um homem chamado Job/16 - Enquanto formos capazes de fazer perguntas, somos livres, também com Deus por Luigino Bruni publicado em Avvenire 28/06/2015 Voltei a Job, porque não posso viver sem ele, porque sinto que o meu tempo, como qualquer tempo, é o de Job; e que, se isto não acontece, é...
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Um homem chamado Job/15 – A alma mantém-se viva enquanto procura Aquele que não responde

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 21/06/2015

logo GiobbeNo final da luta que ele, à partida, sabe estar perdida – como pode o homem ter esperança de vencer Deus? – Job descobre um método ingénuo para perseverar na sua resistência: fingirá ceder antes mesmo de se empenhar na batalha. … Compreendemos assim que, apesar das aparências ou por causa delas, Job continua a interrogar o céu.

Elie Wiesel, Personagens bíblicos através de Midrash

Muito esperado e desejado, ao longo de muito tempo, quando o encontro decisivo chega, é normal que desiluda. O encontro que se imaginava e esperava era grande demais; o encontro real não o poderia saciar. Sonhado, e mil vezes ‘visto’ na alma, as primeiras palavras nossas e as do outro-a já tinham sido antecipadas, o fato novo provado, o nosso, e entrevisto, o seu; já se tinham sentido cheiros, ouvido sons.

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Não há palavras, vestuário, odores, cores ou sons da realidade que consigam igualar os imaginados por um coração que espera. Mesmo a fé, qualquer que seja, nutre-se destas diferenças entre encontros que se sonham e os que acontecem; e a surpresa, tal como a desilusão, é a primeira experiência de uma vida espiritual autêntica, o primeiro sinal de que o Deus que esperávamos não era nem um ídolo, nem apenas um sonho. Pois, se quem vem é demasiado parecido com o que tínhamos sonhado, é certo que daquele encontro não sairemos transformados. A alma é viva e não fica saciada enquanto não deixamos de aspirar por aquele Deus diverso que não compareceu ao encontro marcado.

E assim, após uma espera extenuante, estamos para assistir à entrada na aula do tribunal da testemunha mais importante, aquela que sem trégua Job invocara. A grandeza do livro de Job está também na capacidade de se manter no silêncio de Deus – e nos manter nele – ao longo de trinta e sete capítulos. Não entrando em cena, Elohim permitiu que fossemos até ao fundo nas perguntas; e permitiu a Job que terminasse o seu poema. Os nossos cantos não chegam, demasiadas vezes, a ser obras de arte porque os advogados de Deus fazem com que ele entre em cena cedo demais. A presença mais verdadeira de Elohim no drama de Job foi a sua ausência; as mais belas palavras que disse, foram as não ditas quando os amigos lhe pediam que falasse e fizesse ouvir a sua voz poderosa. Um céu mudo, mas verdadeiro, salva mais que um céu repleto de palavras muito pouco humanas para serem verdadeiras.

Deus começa a falar do meio da tempestade, mas não responde às perguntas de Job, não desce ao plano onde o esperavam. Porquê? Não há teologia que possa responder em abstrato às questões mais radicais que sobem da dor inocente do mundo. Os homens sabem fazer a Deus mais perguntas que as respostas que ele pode dar; um Deus com respostas prontas e perfeitas para todos os porquês grandes e desesperados não passa de ideologia ou, no pior – mas muito comum – dos casos, um ídolo tolo construído à nossa imagem e semelhança. O Deus da Bíblia aprende com as nossas perguntas grandes e desesperadas, surpreende-se quando lhas colocamos pela primeira vez. Se assim não fosse, a criação, a história, nós e o tempo seriam a fingir; estaríamos todos dentro de uma telenovela da qual Deus seria o único espectador aborrecido. Só os ídolos não aprendem nada dos homens; são mortos, nunca foram vivos. A distância entre as nossas perguntas e as respostas de Deus são o espaço para a experiência verdadeira da fé; quando as teologias tentam reduzir ou anular estas distâncias mais não fazem que afastar o seu homem e o seu Deus da Bíblia.

Então, do seio da tempestade o Senhor respondeu a Job e disse: «Quem é esse que obscurece os meus desígnios com palavras insensatas? Cinge os rins como um homem; vou interrogar-te e tu responder-me-ás. Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra? Diz-mo, se a tua inteligência dá para tanto. Sabes quem determinou as suas dimensões? Quem estendeu a régua sobre ela? Sabes em que repousam as suas bases, ou quem colocou nela a pedra angular, entre as aclamações dos astros da manhã e o aplauso de todos os filhos de Deus?” (38, 1-7)

Elohim não aceita o diálogo de igual para igual que Job lhe tinha pedido e não responde às suas perguntas. Repreende-o e recorda-lhe o abismo infinito que separa o criador da criatura – abismo que Job conhecia mas que o não tinha impedido de questionar contra Deus. Não chama Job pelo nome; é ‘aquele que contestava’ e ‘aquele que critica’ (40,2). O livro de Job não conhece um Deus capaz de lutar com Job como um igual; talvez nenhum livro sacro o conheça. Só um Deus extremo poderia estar ao lado da humanidade extrema de Job. De facto, o Deus do livro só consegue calar Job, reconduzi-lo às coordenadas de criatura; mas assim fazendo reconduz-se também a si mesmo para dentro das barreiras teológicas das quais, ao longo de todo o seu canto, Job tinha tentado desencalhá-lo. Job pedira um Deus maior do que o que tinha conhecido; mas no fim do poema, reencontra o mesmo Elohim da sua juventude, como se o drama de Job não tivesse ensinado nada ao céu. Talvez se não possa pedir mais ao livro. Mas nós podemos e devemos pedir mais a Elohim, devemos pedir-lhe que seja diferente de como o apresenta este grande livro bíblico, o maior de todos, talvez.

Com Job, devemos continuar a fazer perguntas maiores que as respostas que obtemos, a não nos contentarmos com um Deus demasiado parecido com o que conhecíamos e que a teologia nos descreveu: criador, omnipotente, sapiente, magnífico. Já sabíamos tudo isso mesmo antes de conhecer Job. Depois de o ouvir e de ter com ele chorado perante a dor inocente da história, já não nos basta o Deus-antes-de-Job. Não é o discurso de Elohim em si mesmo que desilude (se o lêssemos fora do contexto deste livro acharíamos nele muita poesia e beleza): o que nos deixa insatisfeitos é o discurso de Deus surgir no final do grito de Job. Será possível termos sido só nós a mudar enquanto Elohim ficou o mesmo da aposta com Satã que encontrámos no Prólogo do livro (cap. 1-2)? Assim sendo, a dor inocente do mundo não revelará também a Deus algo de novo sobre o universo? E então, para que serve ser fiel e honesto até ao fim, em solidões sem conta?

Temos, portanto, o dever espiritual e ético de pedir mais, de continuar a implorar a Deus que diga alguma coisa que não tenha ainda dito. Se o não fizermos perderemos definitivamente contacto com os pobres e vítimas, com os que continuam a gritar, com quem é demasiado impotente perante o espetáculo do mal para lhe bastar ser consolado pela omnipotência de Deus. Os pobres e as vítimas nunca ficam calados em nome de Deus, nem mesmo quando imprecam contra o céu. Quando se olha o mundo ao lado das vítimas, quando verdadeiramente se frequentam as periferias existenciais, sociais, económicas, morais do mundo, a omnipotência e a força de Deus parecem estar demasiado longe; sobretudo, não nos impelem a fazer todos os possíveis para reduzir com a nossa liberdade o sofrimento do mundo. Não são as narrações das maravilhas do universo, nem descrições magníficas como a do terrível monstro Beemot (“Levanta a sua cauda como um cedro; os tendões das suas coxas estão entrelaçados. Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura é semelhante a barras de ferro” (40,17-19) e de Leviatã (“O seu dorso está revestido de es¬cudos, cujas juntas estão estreitamente ligadas; uma encaixa na outra; nem o ar passa entre elas” (41,7-8) que podem consolar e amar os que gritam enquanto se afogam no mar, nem os que morrem sozinhos numa cama de um moderno hospital. Só o Deus que Job espera, poderia encontrá-los e acolher os seus gritos. Mas este Deus não o encontramos no livro de Job: “Quem fez jorrar o mar das duas comportas, quando saía impetuoso da sua fonte, quando lhe dei as nuvens para se vestir e a neblina para se cobrir? Eu impus-lhe um limite, fechei-o com comportas e ferrolhos e disse-lhe: «Daqui para diante não passas; aqui têm de parar as tuas ondas mais fortes»” (38,8-11).

Aos ouvidos e ao coração de Job, sozinho no monte de esterco, no limiar do desespero, estas palavras, em si mesmas perfeitas, terão produzido o mesmo efeito das palavras sapientes e sábias dos ‘amigos’: apenas fizeram aumentar a solidão e o abandono. Na verdade, também este Deus procura a conversão de Job e pede que ele se renda – o que conseguirá: “O SENHOR interpelou Job, dizendo: ‘Será que aquele que contestava a Deus vai agora responder? Aquele que critica o Todo-Poderoso tem algo que replicar?’. Então Job respondeu ao SENHOR: ‘Sinto-me demasiado pequeno! Que hei de responder-te? Fico calado, sem abrir a boca. Já antes falei, não quero dizer mais nada, nem acrescentar coisa alguma ao que já disse’” (40,3-5). Como muitas vítimas inocentes, Job ficou calado, emudecido. Este Elohim, advogado de defesa da própria insondável omnipotência, não é o Deus que os pobres e os inocentes como Job procuram e merecem.

As respostas deste Deus não chegam ao nível das perguntas de Job. As suas palavras não estão à altura moral das palavras de Job. Mas – e nisto está o mistério extraordinário da Bíblia – também as palavras de Job são palavras de Deus, são parte integrante da única escritura. Podemos então escutar a voz de Deus fazendo falar Job, que o denuncia e ataca. Definindo ‘sagrado’ o livro todo de Job (e os outros) a tradição bíblica realizou uma aliança maravilhosa e eterna entre as palavras de YHWH-Elohim e as dos homens. A palavra de Deus no livro de Job e em toda a escritura deve procurar-se também nas páginas em que fala e grita Job; em que falam os homens, nas suas perguntas extremas sem resposta. Podemos rezar a Deus também com as palavras sem Deus de Job. É este Deus mestiço, que quis misturar as suas palavras com as nossas, o único que pode falar-nos das sarças da terra, para de lá nos chamar, ainda, pelo nome.

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Um homem chamado Job/15 – A alma mantém-se viva enquanto procura Aquele que não responde

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 21/06/2015

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Elie Wiesel, Personagens bíblicos através de Midrash

Muito esperado e desejado, ao longo de muito tempo, quando o encontro decisivo chega, é normal que desiluda. O encontro que se imaginava e esperava era grande demais; o encontro real não o poderia saciar. Sonhado, e mil vezes ‘visto’ na alma, as primeiras palavras nossas e as do outro-a já tinham sido antecipadas, o fato novo provado, o nosso, e entrevisto, o seu; já se tinham sentido cheiros, ouvido sons.

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Um Deus que sabe aprender

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Um homem chamado Job /14 - No céu da fé até as nuvens ajudam a ouvir Deus

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 14/06/2015

logo GiobbeSeparando por meio do sacrifício expiatório a infeção da culpa – que sempre acompanha o homem – das suas catastróficas consequências, a ordem sagrada torna possível a ideia de uma culpa que não é mal real, doença da vida, mas atribuição de responsabilidade moral. A culpa torna-se então um desesperado artifício, uma gaiola para permitir a coexistência do Omnipotente clemente e misericordioso com o sofrimento.

Sergio Quinzio, Um comentário à Bíblia

A felicidade e a dor de qualquer civilização dependem muito da sua ideia de Deus. Isto vale para quem crê mas também para quem não acredita, porque cada geração tem o seu ateísmo, profundamente ligado à ideologia dominante. Acreditar em um Deus à altura da parte melhor do humano é um grande ato de amor também para quem não é crente. A fé boa e honesta é um bem público, pois ser ateu ou não crente num deus tornado banal pelas nossas ideologias, faz com que todos – crentes ou não – se tornem menos humanos.

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Ao longo do seu poema inserido no Livro de Job, Eliú aprofunda o discurso sobre o valor salvífico do sofrimento. Muito embora seguindo uma linha teológica que não convence nem Job nem nós, sugere em todo o caso novas questões: ““Mas, se para ele houver um anjo, um intercessor entre mil, para lhe ensinar o que deve fazer, que tenha piedade dele e diga: ‘Livra-o de descer ao sepulcro, eu encontrei o resgate da sua vida’; então, o seu corpo recupera a ju¬ventude e retornará aos dias da adolescência” (33, 23-25).

O monoteísmo bíblico é uma realidade nada simples e linear. Pesquisando nas escrituras, juntamente com a grande palavra sobre a unicidade de Deus do Sinai, antídoto contra a eterna tentação idolátrica, encontramos viva e fecunda, também, uma vertente que nos oferece um Deus com uma pluralidade de rostos. Também Job, nos momentos mais dramáticos do seu processo, invocou um Deus diverso daquele que lhe apresentava a fé do seu tempo e que ele mesmo tinha conhecido na juventude. Job busca continuamente e com tenacidade um Deus para além de Deus, um ‘Goel’, um fiador, capaz de garantir e defender a sua inocência e de reconhecer a sua justiça perante aquele Deus que o estava injustamente matando.

A este ponto, também Eliú nos aponta, entre mil anjos de Deus, um ‘anjo do resgate’; movido pela compaixão perante a dor do homem poderá intervir com a sua mão misericordiosa libertando-o do abismo onde o tinha precipitado a outra mão de Deus. É bela e rica esta variedade de mãos e de rostos no interior do único Elohim (que em hebraico é o plural de Elohah e do arcaico El), que a tradição cristã em certo sentido salvou, definindo Deus uno e trino, reconhecendo que o SENHOR é único mas não só, mesmo se na doutrina cristã desapareceu muito cedo o rosto obscuro do SENHOR, que estava ainda presente nos evangelhos (onde um Deus-pai abandona na cruz um Deus-filho). Uma divindade toda e somente luz não pode compreender as perguntas de Job, nem aquelas desesperadas das outras vítimas da terra. Se as fés, hoje, quiserem acolher o homem e a mulher do nosso tempo de céu vazio, terão que recuperar a sombra dentro da luz de Deus, habitando-a e atravessando-a juntamente com os muitos Job que povoam o mundo (inúmeros Job movem-se em torno das nossas religiões). Job hoje não voltará a ouvir Deus falar do trovão se eliminarmos as nuvens do céu das fés.

Eliú continua a repetir a justiça de Deus e a defendê-lo contra Job. Também ele sente a necessidade urgente de desempenhar a função de advogado de defesa de Deus, uma profissão para a qual sempre houve em todas as religiões oferta muito abundante, face à procura modesta ou inexistente: “... Longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-Poderoso a iniqui¬dade!” (34,10). Job tinha negado a justiça de Elohim, partindo não de teoremas teológicos mas da sua condição concreta de vítima. No seu processo a Deus, procurou defender sobretudo a sua inocência, demonstrando que não merecia as penas que interpreta como punição divina.

Job teria podido vencer a sua causa no tribunal divino negando que fosse Deus a razão do seu mal, salvando-o assim de ter que responder pela injustiça do mundo. Mas não o fez, e continuou a acreditar num Deus responsável pelo mal e pela dor inocente. Neste ponto, com a ajuda de Eliú, precisamos de perguntar: porque é que Job não quis desligar Deus do mal do mundo? Na cultura de Job, alegrias, dores, desgraças, são expressão direta da providência divina no mundo. No mundo dele e dos seus amigos, o que acontece é intencionalmente desejado por Deus; se acontecem coisas injustas (pessoas honestas sofrendo desgraças e pessoas más felizes), é Deus que assim quer ou pelo menos permite.

A teologia retributiva – presente em quase todas as religiões antigas – era o mecanismo mais simples, mas muito poderoso e tranquilizador, para explicar a presença divina dentro da história: os acontecimentos positivos da vida são prémio para a justiça praticada, os negativos são punição para as culpas de cada um (ou para as dos seus pais). “Eliú retomou a pa¬la¬vra e disse: «Porventura consideras justo dizer ...: ‘De que me serve e que vantagens tenho em não ter pecado? (35,1-3). Em princípio, Job teria podido encontrar uma primeira via para salvar a sua justiça e a de Deus: seria simplesmente negar de todo a teologia económico-retributiva. Mas, no seu universo, o preço altíssimo dessa negação teria sido o reconhecimento de uma injustiça na terra relativamente à qual também Deus teria que admitir a sua impotência. Um preço impossível de pagar, naquela cultura.

A operação ética realizada por Job, de alcance rivolucionário, consistiu então em demonstrar a inocência da vítima do mal, uma revolução cujo significato mais profundo nós, leitores modernos, perdemos (as nossas fés e as nossas não-fés são demasiado diversas e longínquas). Chegados a este ponto do seu livro, devemos porém reconhecer também algo que poderia surpreender-nos: nem sequer Job se libertou completamente da teologia retributiva, porque na sua cultura esta libertação teria significado simplesmente ateísmo, ou a irrelevância da religião. Na verdade, acusando Deus de injustiça para consigo e para com as vítimas, Job continua a salvar o quadro cultural da visão retributiva ou económica da religião e da vida. E dentro do horizonte da fé retributiva, tampouco ele (que foi quem mais tentou pôr em crise esta teoria religiosa), consegue reconhecer uma dupla inocência: a do justo desventurado e a de Deus. Job preferiu, então, uma querela com Deus, em vez de perder a fé no Deus que questionava.

Apenas a descoberta de um Deus frágil teria podido salvar, simultanemente, a sua inocência e a sua fé num Deus inocente. Apenas um Deus que se torna também ele vítima do mal do mundo podia afirmar a própria justiça e a dos pobres justos. Naquela sua espera de um Elohim diverso – que atravessa todo o livro e permanecerá ainda depois da resposta de Deus – estava, talvez, em Job o pedido de um Deus ainda desconhecido, capaz de aceitar a própria impotência perante o mal do mundo. Juntamente com a sua inocência teria que admitir que Deus é débil, que o Todo-poderoso é impotente perante o mal e a dor.

Mas Eliú indica a Job um segundo caminho: a indiferença de Deus: “Contempla o céu e vê; considera as nuvens: são mais altas do que tu! Se pecas, que mal lhe causas? Se multiplicas os teus pecados, que mal lhe fazes? Se és justo, que lhe ofereces ou que recebe Ele da tua mão?” (35,5-7). Mas o Deus da Bíblia não é indiferente às ações humanas: comove-se, arrepende-se, fica alegre ou irado. Eliú, por isso, não pode ter razão porque Elohim-SENHOR revelou-se um Deus interessado em tudo o que acontece debaixo do seu céu. E Job sabia, sabe, continua a saber disso. Se para salvar Deus do mal do mundo que ele criou tivéssemos que negar o contacto entre as nossas ações e o seu ‘coração’, perderíamos tudo da mensagem bíblica. Job não se rendeu no seu combate também para salvar um Deus com coração de carne. Para se salvar, não se contentou com um Deus inútil ou útil apenas para discussões teológicas que quase sempre acabam por condenar os pobres. Se as ações dos homens são inúteis para Deus, o próprio Deus torna-se inútil para os homens – não esqueçamos que a operação de Eliú está no centro do projeto da modernidade. Job, já o vimos muitas vezes, espera e chama um Deus que se assemelhe à melhor humanidade e a ultrapasse. Somos capazes de sofrer pelas injustiças e maldades dos outros e alegramo-nos com o amor e a beleza à nossa volta, mesmo quando não tiremos disso qualquer dano ou vantagem pessoais. É esta compaixão humana o primeiro lugar onde podemos descobrir a compaixão de Deus. A antropologia é o primeiro banco de prova de qualquer teologia que não queira ser ideologia-idolatria. Se Deus não quer ser um motor imóvel ou um ídolo, tem que sofrer com o mal que fazemos, tem que se alegrar com a nossa justiça, tem que morrer connosco sobre as nossas cruzes. Se nós o sabemos fazer – quantos pais e mães se cravam nos madeiros de seus filhos?! – deve também Deus saber fazê-lo.

A lógica retributiva não desapareceu da terra. Reencontramo-la forte e central na ‘religião’ do capitalismo global. O seu novo nome é meritocracia, mas os efeitos e a função são os mesmos das antigas teologias económicas: encontrar um mecanismo abstrato (nunca concreto) que possa garantir, ao mesmo tempo, a ordem lógica do sistema e tranquilizar a consciência dos seus ‘teólogos’. Então, perante os desperdícios e as vítimas do Mercado, o circuito ‘moral’ fecha-se reconhecendo a falta de qualquer mérito nos vencidos – os perdedores (loosers), os ‘non-smart’ – que se verão sempre mais descartados e culpados pela sua desventura.

Na conclusão do monólogo de Eliú, o livro de Job não nos refere nenhuma resposta; nem de Job, nem dos amigos. Job continua a ficar mudo, a chamar um outro Deus. Um Deus que nem Eliú, nem Job, nem o autor do drama conhecem ainda – e talvez nem mesmo nós o conheçamos. Mas este Deus novo virá? E porque tarda assim tanto a vir, enquanto o pobre continua a morrer inocente?

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Um homem chamado Job /14 - No céu da fé até as nuvens ajudam a ouvir Deus

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 14/06/2015

logo GiobbeSeparando por meio do sacrifício expiatório a infeção da culpa – que sempre acompanha o homem – das suas catastróficas consequências, a ordem sagrada torna possível a ideia de uma culpa que não é mal real, doença da vida, mas atribuição de responsabilidade moral. A culpa torna-se então um desesperado artifício, uma gaiola para permitir a coexistência do Omnipotente clemente e misericordioso com o sofrimento.

Sergio Quinzio, Um comentário à Bíblia

A felicidade e a dor de qualquer civilização dependem muito da sua ideia de Deus. Isto vale para quem crê mas também para quem não acredita, porque cada geração tem o seu ateísmo, profundamente ligado à ideologia dominante. Acreditar em um Deus à altura da parte melhor do humano é um grande ato de amor também para quem não é crente. A fé boa e honesta é um bem público, pois ser ateu ou não crente num deus tornado banal pelas nossas ideologias, faz com que todos – crentes ou não – se tornem menos humanos.

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A outra mão do Omnipotente

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Um homem chamado Job/13 – O diálogo, mesmo o mais inesperado, ajuda a entender a vida e Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 07/06/2015

logo GiobbeIob diz que os bons não vivem e que Deus os faz injustamente morrer. Os amigos de Iob dizem que os maus não vivem e que Deus os faz justamente morrer. O certo é que todos morrem.

Guido Ceronetti  O livro de Job

Job chegou ao fim dos seus discursos. Os seus ‘amigos’ humilharam-no e desiludiram-no, mas permitiram também que ele fosse descobrindo razões mais e mais profundas da sua inocência. Nos momentos de discernimento profundo sobre a justiça da nossa vida e da vida do mundo, o diálogo é instrumento essencial. Só com a companhia de alguém, dialogando, conseguiremos compreender as questões mais fundas sobre a nossa existência, penetrar os recantos mais escuros da nossa alma.

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Mesmo quando os interlocutores não são amigos, não nos compreendem e nos magoam, a verdade sobre nós emerge dialogando com outras pessoas, com Deus, com a natureza. A solidão só é boa quando representa uma pausa entre diálogos. Para saber quem somos verdadeiramente, para chegar aos ângulos mais escondidos e verdadeiros do coração, é preciso sobretudo falar e ouvir. Nas noites da vida mais vale estar mal-acompanhados do que sós.

Job chegou de cabeça erguida ao termo do seu processo. Como ‘um príncipe’ espera Deus, mas não sabe se conseguirá, nem se o Deus que espera será o velho Deus dos seus ‘amigos’ ou um Deus novo. E nós, ignorantes como ele, com ele esperamos. A Bíblia é viva e verdadeira enquanto for capaz de nos surpreender; se aqui e agora experimentarmos de novo o espanto perante o mar que se abre diante de nós enquanto o exército do faraó nos persegue; se assistimos, desesperados, à morte de um homem na cruz e a seguir ficamos sem respiração quando o ouvimos, vivo, pronunciar o nosso nome.

A primeira surpresa que chega no final das palavras de Job, advogado de si mesmo, é a chegada de uma nova personagem: Eliú. Não é claro se se estava prevista no guião inicial do drama, até aqui intencionalmente mantido na sombra, de um espectador que irrompe de improviso no palco, ou talvez do diretor do teatro que quer mostrar a sua opinião diferente. O que é certo é que nenhum leitor que se aproxime do livro pela primeira vez, espera que surja neste ponto Eliú. Não estava no Prólogo e a tensão dramática do texto levava-nos a aguardar apenas uma última personagem: Elohim. Mas este livro é grande também pelos seus golpes de cena, pelos contínuos saltos que nos faz dar para manter vivo o desejo das palavras de Elohim, que todos gostaríamos grandes, pelo menos tanto como as de Job.

É possível que uma primeira redação do livro terminasse com o capítulo 31, onde Job respondeu a todas as acusações dos interlocutores e os calou a todos. O silêncio dos protagonistas podia ser a conclusão mais antiga do livro. Job tinha concluído a sua prova e Satã não tinha vencido a sua aposta. Talvez não fossem necessárias as palavras di Eliú, nem as de Elohim, porque – pensando bem – Deus já tinha dito tudo no Prólogo do livro. Mas os grandes livros – os da Bíblia, por certo – são vivos também porque como nas cidades mais antigas os primeiros templos são transformados em igrejas, as casas novas usam as pedras das velhas, à volta das primeiras construções nascem outras com novos estilos arquitetónicos. O poemeto de Eliú é uma nova praça da cidade de Job, mais recente que os primeiros grandes fora e templos, artisticamente menos original, e demasiado ampla para não perturbar a harmonia da paisagem antiga. Um lugar que precisamos de atravessar, em todo o caso. Percorrendo-o, descobriremos alguns cantinhos interessantes; e chegando ao cimo de uma sua escadaria veremos abrirem-se perspetivas novas sobre antigas e eternas belezas desta cidade.

Aqueles três homens deixa¬ram de replicar a Job, porque se tinha por justo. Então inflamou-se a cólera de Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rame; irritou-se contra Job, porque pretendia ter razão diante de Deus. Indignou-se, também, contra os três amigos por não terem achado resposta conve¬niente, contentando-se somente em condenar a Job” (32,1-4).

Um primeiro elemento de interesse de Eliú está no nome, muito semelhante ao do profeta Elias: “Ele é o meu Deus”. Eliú é a única personagem do livro com clara conotação israelita. Além disso, é o único que tem genealogia: é da região de Buz. O livro do Génesis (22,20-22) diz-nos que dois sobrinhos de Abraão se chamavam Uce e Buz; e Uce é a região de Job. Dois dados que colocam Eliú muito próximo de Job e da cultura de Israel. Eliú afirma que pretende colocar-se no mesmo plano de Job, num diálogo par a par entre terrestres: “Também eu sou igual a ti diante de Deus, como tu, fui formado de barro” (33,6).

Os primeiros 31 capítulos do livro de Job são muito radicais e extremos para qualquer leitor, de todos os tempos. Se formos honestos, não deixaremos de entrar em crise, porque este cântico do justo inocente obriga-nos a repensar profundamente as nossas teologias, religiões e ideologias. Obriga-nos a pormo-nos do lado das vítimas e das suas questões que desmascaram as nossas idolatrias; obrigam-nos a olhar o mundo de baixo para cima, a interrogar Deus partindo dos pobres e não vice-versa (como nos habituaram as próprias religiões). No decurso da leitura, quando as perguntas de Job começam a incomodar -nos, pode facilmente nascer a tentação de o emendar, de atenuar a radicalidade da sua mensagem para nela nos sentirmos melhor. Em dado momento, quando o texto se encontrava ainda numa fase permeável, antes da redação final, uma geração de intelectuais, porventura, teve a coragem e a ousadia de emendar aquele antigo cântico de um inocente infeliz, e introduziu no texto originário uma longuíssima digressão (cap.s 32-37), para tornar menos escandalosa a derrota da teologia tradicional e menos nítida a vitória de Job – e talvez para melhorar os próprios discursos de Deus: “E não me venham dizer: “Descobrimos a sabedoria!” Pois só Deus e não um homem lhe pode responder” (32,13). Os autores de Eliú não aceitam a derrota no plano da argumentação dialógica: querem tentar uma última alegação, mostrar que existem outras razões totalmente humanas para confutar as ‘blasfémias’ de Job.

O resultado, no entanto, é modesto; são muito poucos os argumentos novos, embora não faltem alguns versículos dignos das melhores páginas de Job (por ex. 33,15-18; 27-29).
A tese mais original de Eliú – bem conhecida da tradição sapiencial de Israel, mas quase de todo ausente nas argumentações dos três amigos de Job – refere-se à função salvífica do sofrimento, que Deus manda para melhorar e converter as criaturas: “Corrige o homem com dores no leito, com a dor contínua dos seus ossos”” (33,19). A ideia atravessa todo o universo hebraico-cristão; e é fascinante, porque contém também uma verdade. É, porém, uma tese que coloca demasiados problemas em si e que certamente não funciona com Job.
Não se pode negar que na tradição bíblica existe uma linha teológica segundo a qual Deus manda aos homens várias formas de sofrimento para obter a sua conversão (bastaria pensar nas ‘pragas do Egito’). No entanto, quando nas religiões prevalece uma leitura salvífica do sofrimento e da dor, sempre surge a tentação de não fazer todos os possíveis para aliviar o sofrimento humano, incluindo o dos pobres. E podem também insinuar-se a ideia e a práxis de que é bem deixar as pessoas no sofrimento porque aliviá-lo ou eliminá-lo poderia fazer perder a quem sofre a possibilidade de se salvar. Não assim com Job: ele espera um outro Deus, que não seja a causa do sofrimento dos homens; e nós com ele. Um rosto de Elohim que é companheiro de viagem de quem sofre, que tem compaixão dele e dele cuida.

O sofrimento faz parte da condição humana, é pão nosso de cada dia; e se Elohim é o Deus da vida podemos sem dúvida encontrá-lo também no fundo dos sofrimentos nossos e dos outros. Por vezes a noite da dor permite ver as estrelas mais longínquas e sentir ‘habitado’ o vazio criado pelo sofrimento. O encontro com o sofrimento pode permiti-nos aceder a dimensões mais profundas da nossa vida, quando na nudez da existência podemos encontrar um eu mais verdadeiro que ainda não conhecíamos. Outras vezes, pelo contrário, o sofrimento piora as pessoas, tira a luz do dia; não se consegue, sequer, ver o sol ao meio dia. Esmagados pelo sofrimento que os torna menos humanos, há demasiados pobres. Os primeiros capítulos do Génesis dizem que o sofrimento do Adam não estava no projeto originário de Deus, e que a sua fonte é exterior a Elohim. A Bíblia sabe que os deuses que se nutrem do sofrimento dos homens se chamam ídolos.

Mas Eliú não pode usar o seu argumento para explicar o sofrimento de Job. Job é justo e inocente, não se encontrava nem encontra em condição de pecado mortal, para sair da qual precise do sofrimento. Por isso, reconhecendo embora o valor antropológico e espiritual que o sofrimento algumas vezes pode produzir, nenhuma leitura humanista e portanto verdadeira da Bíblia pode fazer de Deus a causa do sofrimento dos homens, muito menos dos inocentes. Que Deus pode associar à sua ação o sofrimento de crianças, o esmagamento de pobres, o grito dos tantos Job da história? E quem o faz constrói religiões desumanas e deuses pequeninos demais para estar à altura da parte melhor de nós que continua a sofrer quando encontra o sofrimento humano. Que sentido religioso teria um mundo em que os seres humanos melhores combatessem o sofrimento que o próprio Deus provocasse? Nenhum. Os crucificados sem ressurreição não salvam nem os homens nem Deus e quem tentar deter as religiões na sexta-feira santa impede que homens e Deus floresçam. A solidariedade e a fraternidade nasceram e renascem da nossa capacidade de sofrer com o sofrimento dos outros, da nossa compaixão pela dor de cada mulher e cada homem. É este Deus solidário que Job busca: um Deus que seja o primeiro a sofrer com o sofrimento do mundo, o primeiro a agir para o reduzir, resgatando os pobres e as vítimas.

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Um homem chamado Job/13 – O diálogo, mesmo o mais inesperado, ajuda a entender a vida e Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire 07/06/2015

logo GiobbeIob diz que os bons não vivem e que Deus os faz injustamente morrer. Os amigos de Iob dizem que os maus não vivem e que Deus os faz justamente morrer. O certo é que todos morrem.

Guido Ceronetti  O livro de Job

Job chegou ao fim dos seus discursos. Os seus ‘amigos’ humilharam-no e desiludiram-no, mas permitiram também que ele fosse descobrindo razões mais e mais profundas da sua inocência. Nos momentos de discernimento profundo sobre a justiça da nossa vida e da vida do mundo, o diálogo é instrumento essencial. Só com a companhia de alguém, dialogando, conseguiremos compreender as questões mais fundas sobre a nossa existência, penetrar os recantos mais escuros da nossa alma.

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O verdadeiro sentido do sofrimento

Um homem chamado Job/13 – O diálogo, mesmo o mais inesperado, ajuda a entender a vida e Deus por Luigino Bruni publicado em Avvenire 07/06/2015 Iob diz que os bons não vivem e que Deus os faz injustamente morrer. Os amigos de Iob dizem que os maus não vivem e que Deus os faz justamente mor...
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Um homem chamado Job/12 – Saudades do futuro, onde coincidem o céu de Deus e o horizonte humano

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 31/05/2015

logo GiobbeOlho-te de soslaio / como quadrícula / de batalha naval / não sei ainda onde / me mandarás ao fundo / marcarás um rombo / com a esferográfica preta / dos olhos / e pôr-me-ás a salvo / numa terra confiada.

Chandra Livia Candiani (*)

Os gritos das vítimas ficam mais fortes quando são repetidos. No seu discurso final, Job continua a repetir as suas perguntas e os seus gritos, repete a defesa da sua inocência, brada ao céu uma vez mais: o pobre não é pobre por ser culpado. Uma pessoa pode ser pobre e infeliz sendo inocente. E se é inocente, alguém terá que o ajudar a levantar-se.

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Antes de mais, Deus, se não quiser ser como os ídolos. O verdadeiro delito com que, frequentemente, se mancharam até as religiões, é matar os pobres, convencendo-os de que a culpa é deles e que merecem estar nas suas infelizes condições; e, assim, somos justificados na nossa indiferença, à qual procuramos associar também Deus.

Nas ruas de Nairobi (de onde escrevo este texto) o grito de Job é ensurdecedor; de todos os lados chegam ecos das nossas respostas falhadas, mascaradas de ideologia. Só na companhia de Job se pode caminhar nas "periferias do capitalismo" sem regras, esperando manter-nos um pouquinho justos: reconhecê-lo ao longo das ruas, aproximar-se das suas feridas e tentar, pelo menos, fazer silêncio para escutar bem o seu grito.
Os amigos de Job deixaram de falar. Ele fica de novo só, no monte de esterco, ferido no corpo e afundado numa escuridão do coração que só Elohim poderia iluminar, pronunciando palavras diferentes das que ouviu dos interlocutores, os aduladores de Deus e os inimigos da vítima e do infeliz. Elohim, porém, não aparece. A sua ausência está-se tornando a mais embaraçadora presença no centro do drama.

Job invocou-o, questionou-o, chamou-o em causa como juiz de última instância para o defender do próprio Deus; pronunciou até um primeiro juramento de inocência. Mas Elohim não comparece na aula do tribunal, não fala, não responde. E nesta espera de um Deus diverso que tarda em vir, ao monte de esterco de Job chega a saudade: “Quem me dera ser como eu era dantes, nos tempos em que Deus me protegia; ...O Deus todo-poderoso estava ainda comigo e eu estava rodeado dos meus filhos” (29,2-5). Uma saudade que aumenta a sua dor. Dá alegria recordar a primavera durante o inverno, quando se pensa ou espera que a primavera de ontem vai chegar já amanhã. Mas quando o inverno não traz nova primavera, quando a noite não gera nova aurora porque é a última noite, recordar o tempo da luz e dos ramos viçosos só faz aumentar o frio do último inverno. É dolorosa a recordação da juventude se não temos perto, pelo menos uma criança, na qual sentimos reviver uma nossa futura juventude, muito diferente, toda e só gratuidade. A saudade que salva é apenas a saudade de futuro.

Mas, naquela última recordação dos dias de bênção há muitas outras coisas. Antes de mais, Job vê uma nova e última prova da sua inocência e justiça: “eu servia de olhos para o cego, e de pernas para o coxo. Era como um pai para os órfãos”. E, com a habitual poesia, acrescenta: “Fiz um pacto com os meus olhos de nunca fixar o olhar numa jovem” (29, 15-16; 31,1). E como tese gêmea da inocência, reaparece então a acusação a Deus, em crescendo de clareza, de intensidade, cada vez mais escandalosa e admirável: “Atira comigo para a lama e fico misturado com o barro e o pó. Gritei por ti e não me respondeste, apresentei-me e não fizeste caso de mim” (30,19-23). O Deus bíblico é um Deus próximo do pobre, responde ao inocente que o invoca; está próximo das vítimas, corre em auxílio de quem grita. O Deus que Job está conhecendo, não: ele grita e Deus não vem.

Se a Bíblia nos quis mostrar um Deus que não responde a Job, quer dizer que existe alguma verdade no Deus que não responde, quando deveria responder. Olhando bem para o mundo, descobre-se que Deus continua a não responder a Job que grita. É este Deus mudo o que os pobres da terra conhecem. Então, talvez, se queremos esperar encontrar verdadeiramente o espírito de Deus no mundo, sem ficar prisioneiro de um ídolo qualquer – fora ou dentro das religiões – devemos descobri-lo nos gritos sem resposta, devemos procurá-lo onde ele não está.

As últimas palavras de Job contêm, pois, um imenso ‘juramento de inocência’ (‘se cometi tal delito, caia sobre mim aquele mal’ …). Job tinha-o já pronunciado (27,1-7); mas agora torna-se mais solene, final, extremo; um último juramento que contém uma pérola, uma das mensagens maiores e mais revolucionárias do livro, de todos os livros. Nestas últimas palavras descobre-se em que consiste, verdadeiramente, para Job, a inocência: “Se me deixei seduzir por uma mulher e me pus a espreitar à porta dos vizinhos, que a minha mulher sirva outro homem… Recusei por acaso algum pedido aos pobres ou deixei chorar inutilmente a viúva, ou comi sozinho um bocado de pão, sem dar também dele aos órfãos … que a minha omoplata me caia ao chão e se quebre o osso do meu braço … Não pus a minha confiança no ouro nem considerei que ele fosse a minha segurança … Não me voltei para o Sol, no seu esplendor, nem para a Lua com o seu andar majestoso, deixando-me seduzir no íntimo do coração e mandando-lhes um beijo com a mão ...” (31,5-10;16-28). Maltratar e não socorrer os pobres, adultério, e as muitas formas de idolatria (riqueza e astros): são estes os crimes e delitos mais graves para Job, para todos.

Mas a um certo momento, Job acrescenta algo que, à primeira vista, nos deixa muito perplexos, admirados, perturbados. Parece que Job, no final da sua arenga, admite a sua culpa: “Como os outros, não escondi de ti os meus pecados, nem calei os meus crimes dentro do peito” (31,33-34). Precisamente no último ato da sua defesa, a poucos passos da meta, rende-se e, seguindo os conselhos dos amigos, admite que é culpado, nega a sua inocência, o único bem que tinha salvado no desastre total. É este o sentido destas palavras? Não. Job está aqui a dizer-nos uma coisa diferente e muito importante, como última palavra, como um testamento.

Reconhecendo a culpa, Job conclui os seus discursos alargando o território da inocência humana, até nele incluir também o pecado. Justo, não é quem não peca e não pratica delitos, porque pecar faz parte da condição humana. Job negou sempre a teologia económica dos amigos, que associavam a sua condição de infeliz ao pecado. Agora compreendemos plenamente que a justiça e a inocência de Job não consistem na ausência de pecados, de quedas morais. Job também pecou. Podem-se cometer pecados e delitos permanecendo justos, se não se sai da verdade acerca de si e da verdade sobre a vida. A mentira é o grande e único pecado contra o Deus de Job, o pecado de quem sabe que falha e tem ‘a culpa escondida no peito’, porque admitindo-a e reconhecendo-a publicamente demonstraria a vontade de conversão e manter-se-ia justo. Existem pessoas injustas e não inocentes que recebem louvores públicos e condecorações civis; e as cadeias estão cheias de justos como Job. Deus, se não for um ídolo, não é livre de não perdoar o pecado dos justos. Com as suas últimas palavras Job diz-nos então algo de decisivo para qualquer experiência de fé: até o pecador pode manter-se inocente. E se até o pecador permanece no território da inocência, então, podemos sempre voltar a levantar-nos depois de uma queda: é possível ser de novo inocente. Job sabe disso, porque crê e espera só neste Deus.

É com esta inocência sincera, verdadeira, honesta, que Job termina a narrativa da sua história. Desempenhou a sua tarefa, terminou a sua missão. Combateu um bom combate. Conservou a fé no homem, em Elohim, na própria dignidade, na própria honra, na inocência do homem, de todos os homens. E fê-lo por nós, continua a fazê-lo por nós, para incluir no reino dos inocentes também os pecadores que continuam a ser justos.

Agora resta-lhe esperar que também Deus faça a sua parte, aguardar que apareça na sala do tribunal da terra. É lá que o espera: “Esta é a minha assinatura; Que Deus me responda! … Havia de lhe contar todos os meus passos e aproximar-me dele como um príncipe” (31,35-37). Job terminou a sua prova com a dignidade do homem livre e verdadeiro. E sente-se um rei, “um príncipe”; pode esperar Deus de cabeça levantada.
Job está no tempo de advento, espera ainda Deus; mas agora sabe que, se vier, será diferente do Deus da sua juventude. Esse primeiro Elohim foi varrido pelo mesmo vento impetuoso que apagou os seus bens. Mas não deixou de aguardá-lo, continuou a ter saudades de Deus, uma nostalgia de futuro.

Nas provas da vida, incluindo as grandes e tremendas, importante mesmo, a única coisa realmente importante, é chegar ao fim da noite, não deixar de aguardar um Deus diferente e chegar a este encontro decisivo de cabeça erguida. Nem sempre se aguarda Deus de cabeça erguida; porque, para ter cabeça erguida e poder olhar Elohim, olhos nos olhos, quando ele chegar é preciso viver as provas da vida como Job, não contentar-se com um deus menor e com um homem pior, para se salvar.

Job chegando como um príncipe ao fim da sua defesa alargou ainda mais o horizonte do humano bom, até o fazer coincidir, na linha do horizonte, com o céu bom do seu Deus.


(*) Chandra Livia Candiani nasceu em Milão em 1952. É tradutora de textos budistas e orienta cursos de meditação. Publicou recolhas de poesias Io con vestito leggero [Eu com vestido leve](Campanotto 2005), La nave di nebbia.[ Navio de nevoeiro] Ninnananne per il mondo [Canções de embalar para o mundo](La biblioteca di Vivarium 2005), La porta [A porta] (La biblioteca di Vivarium 2006), Bevendo il tè con i morti [Tomando chá com os mortos ](Viennepierre 2007) e La bambina pugile ovvero la precisione dell'amore [A menina pugilista ou a precisão do amor] (Einaudi 2014). Está representada na antologia Nuovi poeti italiani 6, cuidada por Giovanna Rosadini (Einaudi 2012).
Os versos citados são a primeira parte de “Allacciami. Sono il tuo bottone” incluido em "La bambina pugile, ovvero La precisione dell’amore".
A síntese biográfica acima é tradução do texto que acompanha a apresentação de no site da Editora:
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Um homem chamado Job/12 – Saudades do futuro, onde coincidem o céu de Deus e o horizonte humano

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 31/05/2015

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Chandra Livia Candiani (*)

Os gritos das vítimas ficam mais fortes quando são repetidos. No seu discurso final, Job continua a repetir as suas perguntas e os seus gritos, repete a defesa da sua inocência, brada ao céu uma vez mais: o pobre não é pobre por ser culpado. Uma pessoa pode ser pobre e infeliz sendo inocente. E se é inocente, alguém terá que o ajudar a levantar-se.

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A espera do inocente

Um homem chamado Job/12 – Saudades do futuro, onde coincidem o céu de Deus e o horizonte humano por Luigino Bruni Publicado em Avvenire 31/05/2015 Olho-te de soslaio / como quadrícula / de batalha naval / não sei ainda onde / me mandarás ao fundo / marcarás um rombo / com a esferográfica preta / dos...
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Um homem chamado Job/11 – Procuremos o céu que está em nós, fiéis à verdade que nos habita

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 24/05/2015

logo GiobbeJob continua a interrogar o céu. Graças a ele ficámos a saber que o homem pode transformar a injustiça divina em justiça humana. Era uma vez, num país longínquo, um homem lendário, justo e generoso que, na solidão e no desespero, achou coragem para enfrentar Deus. E para o obrigar a olhar para a sua Criação.

Elie Wiesel, Personagens bíblicos através do Midrash

A história das religiões e dos povos é o desenrolar de uma verdadeira luta entre os que aprisionam Deus em ideologias e os que procuram libertá-lo. Os profetas pertencem à categoria dos libertadores de Deus, que realizam a sua função essencial de crítica de todos os poderes que, em todas as épocas, experimentam o fascínio invencível de usar religiões e ideologias para reforçar as suas posições de domínio.

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Job é um desses ‘profetas’ e mais que qualquer outro, constringe-nos a ir ao centro do mecanismo de poder, criticando e atacando diretamente a ideia de Deus construída pelas ideologias do seu tempo. Não se limita, portanto, a criticar os poderosos, sacerdotes e reis; mas, como e mais que os grandes profetas da Bíblia, quer desmontar a ideia de Deus que sustém artificialmente todo o edifício do poder. O seu obstinado pedido de processar o Deus ideológico dos ‘amigos’ é a pré-condição para libertar a possibilidade de um outro Deus.
Quando numa comunidade religiosa Job é posto em eclipse ou emudecido, proliferam respostas em nome de Deus e desaparecem as perguntas a Deus. E quando se deixa de fazer perguntas, novas e difíceis, a Deus, impedimo-lo de falar à nossa história e de crescer nela: Deus fica atado no interior de categorias abstratas que deixam de entender as palavras e os gritos das vítimas. Os profetas são indispensáveis porque convidam o homem a morrer e ressuscitar, para se libertar da idolatria; e porque obrigam Deus a morrer e ressuscitar para estar à altura do humano verdadeiro.

No termo dos seus discursos, os três amigos de Job não conseguiram nada. Job está cada vez mais convencido da sua inocência e, por isso, cada vez mais decidido a que Deus compareça num processo justo do qual espera ser ilibado por um Deus diferente que não vê ainda, mas sente possível. As teo-ideologias dos seus interlocutores, em vez de os aproximar das razões de Deus, apenas reforçaram neles a convicção da sua própria justiça. Os diálogos tiveram, porém o grande mérito de nos fazer conhecer Job e a sua radical revolução religiosa e antropológica. E assim, o grande sofrimento e a infinita desventura, que no início, nos pareciam uma sebe alta de sofrimento que fechava o horizonte dos homens e de Deus, abriram-nos, pouco a pouco, para além dela, ilimitados espaços, novos horizontes do homem e novos horizontes de Deus.

Como charneira entre a primeira e a segunda parte do livro, encontramos, agora, um Hino à Sabedoria, talvez um poema já existente, que o autor do livro inseriu para quebrar o ritmo da narrativa e para nos permitir recuperar o fôlego. Um interlúdio difícil de decifrar mas rico de poesia, mais um presente deste livro imenso. “Sabemos que há minas de onde se tira a prata e lugares de onde se extrai o ouro”, o homem explora “os lugares mais escondidos”, perfura galerias no subsolo e chega aos preciosos metais “balanceando-se suspenso por uma corda”. É o homem da técnica que usa a inteligência para dominar o mundo: “Abre galerias na rocha, de olhar atento a qualquer preciosidade. Explora as nascentes dos rios e traz à luz dia as riquezas lá escondidas” (28,1-11).

O Hino sublinha, porém, a ambivalência da técnica. Como qualquer homem antigo, também o autor do livro de Job se mostra surpreendido e admirado com a capacidade que os homens desenvolveram para dominar a matéria, as coisas, o mundo. Mas, dentro da técnica, vê, escondido mas real o risco de abuso: “Por cima é terra que produz o pão e por baixo parece que foi tudo queimado pelo fogo. …Até no granito ele meteu a mão e remexeu a raiz das montanhas” (28;5,9). A técnica tem uma lei intrínseca que leva os homens a escavar galerias cada vez mais profundas, a desmontar montanhas à procura de material precioso, deixando assim na fome os agricultores que viviam naquelas terras; ontem e hoje. Se então quisermos compreender a mensagem bíblica sobre a relação entre o homem e a natureza, precisamos de ler o mandamento de ‘dominar a terra’ contido no Génesis (1,28) a par deste hino do livro de Job, onde é reconhecido o valor do espírito da técnica, distinto, porém, do espírito da sabedoria: “Mas a sabedoria, donde é que ela vem? Onde fica a fonte da inteligência?” (28,12). A sabedoria não se extrai em minas nem se pode comprar no mercado, trocando-a por metal precioso: “Não se vende a troco de ouro, nem se paga a peso de prata. …Não se compara com ela o topázio da Etiópia, nem se adquire pelo ouro mais puro” (28,17-19).

Para colher a dimensão de novidade destas palavras, é necessário ter presente a cultura do tempo, completamente permeada pela teologia ‘económica’. No Médio Oriente antigo sabia-se, por certo, que ouro, prata, topázio e pérolas não compravam a sabedoria; eram, todavia, sinais inequívocos de bênção de Deus, o mesmo Deus de quem a sabedoria provém. E era normal pensar que ninguém se tornava rico sem sabedoria. O espírito da riqueza e o espírito da sabedoria eram considerados espelho um do outro. O insensato não se torna rico; se nascer rico, ficará pobre se não possuir a sabedoria. Como também o engenheiro e o cientista não são ‘inteligentes’ sem sabedoria.

Este hino, pelo contrário, separa a riqueza (e a técnica) da sabedoria; e, procedendo assim, coloca-se do lado de Job que, repetidamente, nos afirmou que não existe relação entre riqueza e justiça, porque, na terra, existem justos ricos e justos desafortunados, e vice-versa. O ouro e a prata de alguém nada dizem sobre a sua retidão: Job era justo quando rico e continua a ser justo como pobre e infeliz. Os bens passam e são mutáveis, a justiça e a sabedoria são para sempre e são, por isso, um investimento muito mais inteligente.
Poderíamos, então, ler este interlúdio como uma confirmação e aprovação da ‘teologia’ de Job e uma crítica às teologias económicas e retributivas dos amigos. Este hino à sabedoria recorda, além disso, a antiga e importante verdade de que a sabedoria é dom, gratuidade, charis; não é um produto de mercado que se possa comprar com ouro ou obter através de adivinhos ou magos. Também nisto Elohim-SENHOR se distingue dos ídolos, que dão a sua ‘sabedoria’ aos aduladores que pagarem o seu preço, através de sacrifícios e submissão. O Deus bíblico não é um ídolo porque não vende a sabedoria, mas doa-a livremente; no fundo, toda a religião retributiva é idolátrica e comercial.

Palavras que também Job teria podido pronunciar. No entanto – e aqui está o mistério e o interesse deste capítulo – o autor diz-nos uma outra coisa que complica o discurso e nos obriga a ir mais fundo. Diz-nos que a sabedoria é impossível e inatingível para o homem: “Deus compreende os caminhos da sabedoria; É ele que conhece a sua origem” (28,23). Nisto afasta-se decididamente de Job. Nem todo o livro de Job está à altura de Job. É preciso salvar as palavras de Job das outras muitas palavras do livro, incluindo as de Elohim que escutaremos em breve. Job nega a lei que liga justiça e riqueza, mas acredita que existe, que deve existir, uma lógica da sabedoria. O Deus que ele chama e espera não é um contabilista que atribui os bens aos homens na base dos seus méritos; seria um deus banal como todos os ídolos. Mas não aceita a ideia de que não há qualquer ligação entre justiça e sabedoria: o justo é sapiente, ainda que seja pobre e infeliz. E a prova disto é a história e a vida de todos, onde a sabedoria não coincide com a inteligência da técnica, mas onde existe, e é verdadeira, uma relação entre retidão e sabedoria.

Conhecemos pessoas sábias e ignorantes, sábias e pobres, sábias e não muito inteligentes. O homo faber e o homo oeconomicus podem ser parvos, e são-no com frequência. O justo não, porque Deus, se não é um ídolo, deve doar a sabedoria a quem segue a justiça, mesmo quando a segue (como Job) negando a justiça de Elohim. Uma pessoa falsa, iníqua, maldosa não é nunca sábia: esta lei não é menos verdadeira que a que move o e as estrelas. O homem iníquo pode esperar obter todos os outros bens, mas não o da sabedoria. Job conhece esta lei porque a vê no mundo, mas, sobretudo, porque a traz inscrita na consciência. Também nós a conhecemos e reconhecemos fora e dentro de nós (nisto reside a esperança de nos podermos sempre converter, ainda que seja no último sopro de vida).

Então a mina da sabedoria existe: está dentro de nós e, para a descobrir, basta permanecer fiel à verdade que nos habita. É a mensagem principal de Job. Este hino à sabedoria contém, então, uma meia verdade. Recorda-nos que a sabedoria é dom, mas não diz que o recebemos quando vimos ao mundo e que esse dom habita dentro de nós. É aí que podemos escavar para chegar a ele; e tendo a ele chegado descobrir que é a parte melhor de nós. É aí que podemos encontrar, descobrir, escutar e seguir a sabedoria. É aí que podemos reconhecer também a voz de Elohim, uma voz que não poderíamos reconhecer se não estivesse já dentro de nós, porventura tapada ou ferida. Se o adam é modelado à imagem de Elohim, a sabedoria divina é também a sabedoria humana.

O céu dentro de nós não é diverso do céu acima de nós, e se se escurece o céu dentro, também o do alto se apaga ou se enche de ídolos. O canto de Job é um grande hino à verdade do ser humano vivo, que é mais verdadeira que todas as suas noites. Se Deus é verdadeiro, também o homem o é e a sua consciência reta não é autoengano. Se Deus é sabedoria, também o homem o é. Se separamos estas duas sabedorias-verdade – fizemo-lo muitas vezes e continuamos a fazê-lo – as religiões tornam-se inúteis, os humanismos perdem o rumo e Job termina o seu canto. 

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Um homem chamado Job/11 – Procuremos o céu que está em nós, fiéis à verdade que nos habita

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 24/05/2015

logo GiobbeJob continua a interrogar o céu. Graças a ele ficámos a saber que o homem pode transformar a injustiça divina em justiça humana. Era uma vez, num país longínquo, um homem lendário, justo e generoso que, na solidão e no desespero, achou coragem para enfrentar Deus. E para o obrigar a olhar para a sua Criação.

Elie Wiesel, Personagens bíblicos através do Midrash

A história das religiões e dos povos é o desenrolar de uma verdadeira luta entre os que aprisionam Deus em ideologias e os que procuram libertá-lo. Os profetas pertencem à categoria dos libertadores de Deus, que realizam a sua função essencial de crítica de todos os poderes que, em todas as épocas, experimentam o fascínio invencível de usar religiões e ideologias para reforçar as suas posições de domínio.

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A mina da sabedoria

Um homem chamado Job/11 – Procuremos o céu que está em nós, fiéis à verdade que nos habita por Luigino Bruni Publicado em Avvenire 24/05/2015 Job continua a interrogar o céu. Graças a ele ficámos a saber que o homem pode transformar a injustiça divina em justiça humana. Era uma vez, num país longínq...
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Um homem chamado Job/10 – Não nos salvamos aceitando lógicas e palavras erradas

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 17/05/2015

logo GiobbeNo dia do juízo será Deus a ter que prestar contas de todo o sofrimento do mundo

Ermanno Olmi, Centochiodi

Certo dia, um pássaro encontrou-se no interior de uma grande casa luminosa; voava livre e feliz. A um certo ponto alguém fechou todas as janelas da casa. O passarinho via o seu céu através dos vidros transparentes; tentava chegar lá, mas batia sempre com a cabeça no vidro. Tentou várias vezes até que, do outro lado da casa, viu uma porta que dava para um corredor escuro, negro. Desesperado, intuiu que, a haver uma saída para regressar ao seu céu, teria que ser pelo escuro, para além daquela porta. Lançou-se, então, pelo negro das escadas. Bateu em muitas esquinas, magoou-se, quebrou a ponta de uma asa, mas não desistiu, não se deixou vencer pelo medo e pela dor. Depois de muita escuridão viu um pouco de luz: era a mesma luz de onde tinha vindo.

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Chegámos ao final dos diálogos de Job com os ‘amigos’. Encarcerados em éticas e teologias ideológicas, não conseguem ver o verdadeiro homem Job, insistem em censuras e condenações ao fantasma que imaginaram para confirmar exatamente as suas teorias. Job não se conformou com respostas perfeitas a perguntas fáceis e banais; gostaria bem que alguém tomasse a sério as suas perguntas difíceis e desesperadas, mesmo que lhes não desse resposta. Mas, sobretudo, não pode aceitar uma ideia de Deus que, para afirmar a própria grandeza humilha e denigre os seres humanos, negando-lhes verdade e inocência, como continua a afirmar Bildad: “Até a Lua se apresenta sem luz e as estrelas perdem brilho diante dele, quanto mais o homem, criatura insignificante, que não passa de um simples verme!” (25,5-6).

E Job respondeu: “Que boa maneira de ajudar a quem está sem forças, de socorrer a quem não consegue erguer os braços! Que maneira de aconselhar um ignorante, instruindo-o com tanta habilidade! Quem é que te inspirou essas palavras? Em nome de quem estiveste a falar?” (26,1-4). É como se Job perguntasse a Bildad: com quem, na verdade, estavas a falar, dizendo que falavas comigo? Prisioneiros da sua ideologia, Bildad e os amigos tinham gradualmente perdido Job pelo caminho, os diálogos foram-se transformando em monólogos: deixaram de olhar a vítima nos olhos; falavam de Job, mas não a Job.

É forte esta pergunta de Job, no final dos ‘diálogos’; denuncia uma falta grave cometida pelos amigos, talvez a mais grave, dentro do humanismo bíblico: tinham traído a palavra. Como os feiticeiros, os idólatras e os adivinhos, tinham instrumentalizado as palavras, esvaziando-as da sua verdade.

Todo aquele que fala, sobretudo quem fala ou escreve em público, deve chegar ao momento de se interrogar: ‘Para quem estou eu, realmente, a falar? Para quem estou, realmente, a escrever? E que lugar tem a verdade na minha palavra?’ Sentir a urgência da honestidade da palavra é etapa fundamental na vida de quem fala e escreve; e, também, na prática, na vida de todos. É sempre grande a tentação de usar e instrumentalizar a palavra, desligando-a da humilde e difícil verdade, de calar o único ‘espírito’ verdadeiro para adorar os espíritos falsos e mortíferos dos ídolos. Etapa decisiva, que pode também nunca chegar.

A leitura honesta de Job é grande ajuda para fazer despontar a possibilidade desta etapa. Pelo contrário, quando este momento decisivo não chega, ou quando, perante a alternativa optamos por dar voz ao espírito errado, a palavra perde a sua força criativa e eficaz, transforma-se em exercício formal, em técnica para obter vantagens pessoais. A palavra usada e não respeitada é sempre palavra abusada; afasta-se da sua natureza mais profunda e verdadeira – a gratuidade – que é o que está em jogo na aposta entre Elohim e Satanás, com a qual o livro se abre e que o informa totalmente.

É dentro desta ‘economia’ da palavra e das palavras que se compreende, em toda a sua força escandalosa, o juramento de Job, uma das obras-primas do livro: “E Job continuou o seu discurso, desta maneira: «Juro por Deus, o Todo-Poderoso, que se nega a fazer-me justiça e me enche de amargura! Juro que, enquanto eu respirar e Deus me conservar a vida, da minha boca não sairão falsidades, nem pronunciarei mentiras. Longe de mim dar-vos razão! Defenderei até à morte que sou inocente. …; não há nada a reprovar em mim. Que os meus adversários e inimigos tenham a sorte dos criminosos e malvados!” (27,1-7).

Job pode fazer agora este juramento porque protegeu até aqui a verdade das suas palavras. Só quem é fiel às palavras pode pedir tudo. Este tipo de juramento era a forma mais solene de confissão de inocência, pronunciado apenas em casos de especial gravidade. Quando o acusado fazia este juramento de inocência, suspendia-se o processo e o imputado confiava-se diretamente ao juízo de Deus (Deuteronómio 17,17-19), sabendo que se sujeitava a pena de morte se Deus recusasse a sua inocência.

A maravilhosa e desesperada loucura de Job está no paradoxo que continua a sustentar até às extremas consequências. Pronuncia o juramento extremo em nome de Deus, mas chama-o “o Todo-Poderoso, que se nega a fazer-me justiça e me enche de amargura”. Pede para ser libertado de todos os advogados, dispensado de todos os juízes humanos, para obter finalmente justiça daquele Deus que lha está negando; no seu processo grandioso Elohim não é o juiz imparcial de última instância, mas seu adversário: “Que os meus adversários e inimigos tenham a sorte dos criminosos e malvados!” (27,7).

Deste paradoxo não somos capazes de sair; e, se saíssemos, perderíamos a dimensão mais revolucionária e libertadora que o livro de Job contém. Se Job é imagem e voz das vítimas inocentes da história, e se Deus é o Deus bom e justo da Aliança, o paradoxo de Job não tem solução; qualquer teologia amiga do homem e da verdade precisa de encontrar o seu lugar no interior do paradoxo de Job, evitando atalhos (que, infelizmente, são muito frequentes).
Ao longo do drama, Job vai-nos dizendo, então, algo de grande importância: a primeira gratuidade é a gratuidade da palavra. Para suspender ou aliviar as suas penas teria podido instrumentalizar e não respeitar a verdade da sua palavra; seguindo os conselhos dos amigos, teria podido pedir uma misericórdia falsa. Se o tivesse feito, Satanás teria vencido a aposta. A gratuidade da vida, do coração, da alma, é sempre gratuidade da palavra. Quando se perde contacto com a verdade da palavra e das palavras, perde-se contacto com a verdade da vida; tudo se torna instrumental, utilitarista, ‘económico’, precisamente como as teologias dos amigos: falsas, porque sem gratuidade. Assim, quando tentamos chamar as coisas, os outros e nós próprios pelo nome, retorna-nos apenas um eco mudo. Abre-se um horizonte de grande significado. Entende-se, por exemplo, porque é que muita gente perdeu a vida por recusar, mesmo sob tortura (como e mais que Job) dizer palavras (renegar a fé, trair um amigo) que lhe salvaria a vida; mas iriam trair algo maior e sacro: a própria verdade, dentro das verdades guardadas pelas palavras.

O SENHOR Elohim é uma voz; é apenas uma voz que não se vê, e toda a sua força está na sua palavra. Então, a verdade da fé e da vida joga-se inteiramente na verdade das palavras de Deus e das palavras humanas. A Aliança é um encontro de palavras humanas e divinas; para ser verdadeira e não mero rito mágico idolátrico, precisa radicalmente de gratuidade de ambas as partes do pacto. A nossa época faz um esforço enorme para entender a Bíblia e as outras grandes palavras do mundo – e por vezes não o consegue – porque se perdeu contacto com a verdade e a gratuidade das nossas palavras humanas.

Num mundo de palavras ocas também a palavra da Bíblia é associada ao infinito nada das nossas palavras traídas. Já não se compreendem os poetas que na terra das palavras esvaziadas e usadas sem gratuidade se tonam novos Job, torturados por ‘amigos’ e pela ideologia ‘económica’ que também domina o nosso tempo: “Com assobios e bofetadas, obriga-o a abandonar o seu lugar” (27,23). Onde reina o desprezo pela verdade das palavras, prosperam os falsos poetas que se apoderam das palavras com fins de lucro, e as fazem morrer. Job pode pronunciar este juramento solene com base em duas fés. A fé-fidelidade no Deus vivo que um dia há de revelar algo de si que ainda não se vê, e a fé-fidelidade à voz verdadeira que lhe fala dentro de si, à sua ruah, o espírito-sopro que lhe garante a sua inocência.

É dentro da sua consciência sincera e verdadeira que ele intui a possibilidade da revelação de um Deus que não vê ainda: é lá que Job aguarda o messias, e nós com ele. A terra prometida pode começar dentro do seu coração que “não tem vergonha” de si. Não existe noite que nos faça verdadeiramente morrer se não nos envergonharmos do nosso coração. Quem passa por campos de concentração, pela morte de filhos e de crianças, só é capaz de continuar a acreditar na possibilidade de um “Deus vivo” porque existiram e existem pessoas que, como Job, continuaram a procurar rostos diversos de Deus, ancoradas na verdade da sua consciência, porque a sentiam habitada pelo “Deus do ainda não”. Mas só a fidelidade extrema à gratuidade das nossas palavras nos pode tornar capazes de ver um céu mais alto e verdadeiro.

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Um homem chamado Job/10 – Não nos salvamos aceitando lógicas e palavras erradas

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 17/05/2015

logo GiobbeNo dia do juízo será Deus a ter que prestar contas de todo o sofrimento do mundo

Ermanno Olmi, Centochiodi

Certo dia, um pássaro encontrou-se no interior de uma grande casa luminosa; voava livre e feliz. A um certo ponto alguém fechou todas as janelas da casa. O passarinho via o seu céu através dos vidros transparentes; tentava chegar lá, mas batia sempre com a cabeça no vidro. Tentou várias vezes até que, do outro lado da casa, viu uma porta que dava para um corredor escuro, negro. Desesperado, intuiu que, a haver uma saída para regressar ao seu céu, teria que ser pelo escuro, para além daquela porta. Lançou-se, então, pelo negro das escadas. Bateu em muitas esquinas, magoou-se, quebrou a ponta de uma asa, mas não desistiu, não se deixou vencer pelo medo e pela dor. Depois de muita escuridão viu um pouco de luz: era a mesma luz de onde tinha vindo.

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Fidelidade ao Deus do ainda não

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Um homem chamado Job/9 – Com o olhar dos pobres, para além da noite do homem e de Deus

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 10/05/2015

logo Giobbe"Sou um homem ferido. / Queria era ir-me embora / Encontrar finalmente, / Piedade, onde se escuta / O homem sozinho consigo mesmo. / […] Mostra-nos um vestígio de justiça. /Que lei é a tua? / Fulmina as minhas pobres emoções, / livra-me da inquietação. / Estou exausto de gritar sem voz."

Giuseppe Ungaretti La pietà (Piedade)

Cada geração produz um próprio desfasamento entre as questões novas e difíceis das vítimas e as respostas insuficientes dos amigos de Job. Por vezes, esta distância tornou-se uma abertura através da qual se lança o olhar procurando descortinar um horizonte humano mais amplo e um céu mais alto. Muitas outras vezes, tal espaço é negado e anulado: as questões dolorosas e fecundas dos pobres são eliminadas. Para que fosse possível encontrar ‘Job e os seus irmãos’ bastaria aprender a habitar, em silenciosa escuta, este inevitável vazio. Poderia então florir uma solidariedade nova no nosso tempo; talvez a fraternidade, finalmente.

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Elifaz de Teman, no segundo ataque a Job, perante a obstinação com que Job se declara inocente e nega a teologia ‘retributiva’ dos amigos, abandona o raciocínio abstrato (se estás sofrendo deves ser pecador e malvado), e chega a acusá-lo de graves crimes específicos, concretos, históricos, atribuindo-lhe os piores delitos: “Exigias injustamente o que era dos outros, tiravas-lhes a roupa, deixando-os nus. Não davas de beber a quem tinha sede e negavas pão a quem tinha fome. Sentias-te como alguém que é dono do país… Mandaste embora as viúvas sem nada e os órfãos ficaram de mãos vazias” (22, 6-9). Mas Elifaz não se dá por satisfeito; acusa Job de ter cometido estes crimes “por nada” (22,6), sem um motivo, ‘gratuitamente’. Uma gratuidade oposta à que movia Job, sobre a qual Satanás fizera a sua aposta com Deus (“achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados?”: 1,9).

A realidade é completamente virada do avesso: Job, o justo ‘por nada’, por gratuidade pura, é acusado agora de ser pessoa poderosa malévola, capaz de maldade gratuita; uma acusação pior que a de Satanás – o qual punha em dúvida a gratuidade de Job, mas não a sua justiça. Continuando, Elifaz chega mesmo a evocar a condição perversa da humanidade antes do dilúvio (22,14-20). Job como Lamec. Job como Caim. Elifaz sabe que Job nunca cometeu esses delitos atrozes. Do Prólogo do livro sabemos que Job era um homem justo e honesto, o homem mais reto que existia na terra (“Não há outro como ele no mundo”: 2,3). Como Noé, que salvou a humanidade do dilúvio. Também Elifaz e os outros amigos sabiam tudo isto. No entanto, alteram completamente a realidade. Porquê? Estamos perante uma descrição perfeita do que é uma ideologia; quando alguém, uma comunidade, uma organização, uma corrente de pensamento é capturada pela ideologia (que – não se deve esquecê-lo – é sempre idolatria: adoram-se fetiches fabricados com as próprias ‘mãos’), não só chega a negar a evidência, como, quase sempre, inventa factos, histórias, palavras.

No início, o inventor desta realidade virtual consegue ainda distinguir os factos inventados dos reais; mas cedo chega o momento em que os próprios inventores começam a acreditar na realidade que criaram. A ideologia tem a sua primeira força nesta capacidade de inventar uma realidade diversa e acreditar depois nas invenções que ela própria cria. Uma força que a torna irrefutável e invencível no plano do discurso e do diálogo; é o que Job nos está mostrando. Constroem-se artificialmente histórias, heróis, vítimas; um dia saem da ficção e tornam-se reais para quem os produziu. Deste modo, a pessoa doente de ideologia vive realmente em outro mundo, vê outras coisas, habita uma realidade paralela. A história mostra continuamente monstros ideológicos que acabam por devorar as pessoas reais, incluindo também, quase sempre, os próprios autores.

O pensamento ideológico apresenta-se sempre como uma progressiva fuga da ambivalente realidade da vida, para entrar numa outra realidade diversa, mais simples, com respostas perfeitas para todas as perguntas. Pelo contrário, Job é o anti-ideólogo; todo o seu esforço é para se manter ancorado à verdade própria e da terra, sem cair ele também dentro da ideologia que, sistematica e tenazmente, os seus amigos lhe propõem como via para sair do buraco negro em que caiu. Tremenda e maravilhosa, nos diálogos de Job, é a sua obstinação em não aceitar sequer a misericórdia de Deus, que sistematicamente lhe é sugerida pelos amigos (“Se te voltares para o Todo-Poderoso, ficarás restabelecido”: 22,23); porque sente que não encontraria Deus, mas uma ideologia, um ídolo. Também a misericórdia precisa de verdade. Não é misericordioso aquele que perdoa uma culpa que não existe, ou foi habilmente fabricada para suscitar no outro um pedido de perdão. Aceitar essa misericórdia significaria apenas entrar na mesma ideologia de quem a propõe. Oferecer misericórdia para perdoar culpas inventadas, é forma comum e subtil de domínio que os poderosos usam com os pobres e com as suas vítimas; a história oferece amplo e tristíssimo leque de exemplos dela. Job não pede nem quer esta misericórdia nem para si nem para quantos, antes e depois dele, tiveram que utilizá-la: quantos pobres, quantas mulheres, tiveram que pedir desculpa por delitos que nunca cometeram, implorar perdão por pecados que nunca fizeram, assumir a culpa no lugar de outros que precisavam de ficar protegidos e ‘inocentes’.

O grito de Job vale também para eles, para manter viva a sua memória apagada e servir de eco aos seus brados destroçados. Os gritos dos inocentes não devem ser emudecidos com a oferta de falsa misericórdia: o maior ato de misericórdia é deixar que continuem a gritar, esperando que alguém, ou Deus, os escute e recolha. Impedir o pobre de gritar, convencendo-o de que é culpado, será porventura um ato de não-misericórdia dos mais graves. Se é verdade que não há justiça sem misericórdia, Job diz-nos que tampouco pode haver verdadeira misericórdia sem justiça. Um dom instrumentalizado torna-se veneno, envenena os relacionamentos. Job não quer negociar a pena, a única coisa que quer é a absolvição plena e a condenação de Deus por comportamento injusto para consigo e para com os inúmeros inocentes do mundo. Capítulo após capítulo continua a pedir uma coisa só: que possa encontrar-se com Deus, de igual para igual, para que ele lhe explique as injustiças da terra: “Quem me dera saber onde encontrá-lo e poder chegar até ao seu tribunal!” (23,3).

Job procura um rosto de Deus que aceite admitir a sua culpa, que se disponha a correr o risco de perder em tribunal, no confronto com a justiça do homem; está aqui a grandeza desconcertante deste livro. Mas pode existir um Deus assim? Que Elohim está disposto a aceitar um contraditório com os homens, submetendo-se depois ao veredito de culpa? “Apresentaria diante dele a minha causa; eu mesmo discutiria as questões” (23,4). Mas Job não encontra o tribunal de Deus, não vê Elohim na sua terra, nem o pressente chegar na linha do horizonte: “Mas se vou para oriente, não sei onde ele está; se volto para ocidente, não o descubro. Procuro-o para norte e não o encontro; vou para sul e não o chego a ver” (23,8-9). Vive uma noite de Deus perfeita. E continua a procurá-lo, para além do palavreado dos amigos. A sua honesta noite prepara uma alba para o homem. Céus demasiado luminosos, claros  e límpidos acabam inevitavelmente por escurecer as terras humildes, pedregosas e áridas dos pobres.

É então que se dá um golpe de cena. Job usa as mesmas imagens de pecado e malvadez que Elifaz lhe tinha atribuído (pão e água negados, viúvas, órfãos, penhores, vestuário …), mas para nos dar um quadro, realíssimo e muito verdadeiro, das vítimas dos crimes dos poderosos: “Como asnos selvagens vão trabalhar para o deserto; saem de manhã cedo para lugares ermos, para arranjarem comida para os seus filhos. Vão apanhar espigas nos campos alheios, vão vindimar as vinhas dos maus. De noite, não têm nada com que se cobrir, nada para poderem evitar o frio. … passam fome, carregando feixes de espigas. Espremem o azeite com as mós e pisam as uvas no lagar, mas morrem de sede” (24,5-11).

Os pobres trabalham como asnos selvagens: levam às costas feixes de espigas para os patrões e eles morrem de fome, pisam azeitonas e uva e eles queimam-se de sede. O pobre é obrigado a dar aos credores como penhor a sua capa; mas em vez de recebê-la de volta à noite, para se cobrir, é deixado nu na berma do caminho (Êxodo, 22,26). Muitíssimas pessoas tornaram-se ateus face às insuficientes respostas à exigência sobre a injustiça e sobre o mal do mundo. Elifaz, com a sua teo-ideologia, tinha inventado um Job poderoso e cruel que perpetrava delitos e prepotências sobre pobres imaginários. Job, realmente pobre e inocente, olha o mesmo mundo de Elifaz, mas vê-o diversamente. Solidário com as vítimas, diz: “Na cidade, os moribundos gemem e os feridos pedem socorro e Deus não presta atenção a este absurdo” (24,12). Visto do monte de esterco de Job, o mundo só pode assemelhar-se a um espetáculo de grande, sistemática e universal injustiça. Os pobres continuam a dormir à noite sem cobertor, junto às grades corridas das montras de alta moda. Job morre de fome, enquanto os amigos filosofam sobre comida. E volta ainda mais forte a tentação de construir novas e mais sofisticadas ideologias para calar os pobres, para não os ver, para convencê-los e convencer-nos de que são eles os culpados e merecem a sua triste sorte. Job continua a sua luta, geração após geração. Aguarda respostas solidárias e verdadeiras, não falsa misericórdia. Dos homens – nós – e de Deus.

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Um homem chamado Job/9 – Com o olhar dos pobres, para além da noite do homem e de Deus

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 10/05/2015

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O veneno da falsa misericórdia

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Um homem chamado Job/8 – A verdade da vida está nas perguntas jovens e pobres

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 03/05/2015

logo Giobbe"…E não espero ninguém: / entre quatro paredes / espantadas de espaço / mais que um deserto / não espero ninguém: / mas deve vir; / virá, se eu conseguir / nascer sem ser visto, / virá de improviso, / quando menos me der conta: / virá quase perdão / de quanto faz morrer, / virá dar-me a certeza / do seu e meu tesouro, / virá como repouso / das minhas e suas penas, / virá, está chegando, talvez, o seu murmúrio..."

Clemente Rebora, Canti Anonimi

Existe uma alternância entre fé e ideologia, religião e idolatria em pessoas, comunidades, civilizações e fés. No início do caminho é-se seduzido por uma voz que chama: acredita-se e parte-se. Mas depois de percorrer parte do caminho, por vezes bem longo, quase sempre se cai na ideologia, quando não na idolatria. É uma saída muito provável, talvez mesmo inevitável, porque ideologia e idolatria são produtos naturais da fé e da religião. A leitura honesta e nua do livro de Job – não é por acaso que se encontra no centro da Bíblia, cujo principal inimigo é a idolatria – é cura poderosa para estas graves doenças da religião, já que obriga a abandonar respostas amadurecidas e conquistadas com esforço ao longo de boa parte da vida, para regressar, humildes e verdadeiros, às primeiras perguntas da juventude.

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Estamos a chegar ao centro do livro de Job, ao meio da sua passagem noturna (capítulo 21, de um total de 42). Avançando na leitura, damo-nos conta, cada vez mais, de que não possuímos as categorias culturais indispensáveis para verdadeiramente entender a proposta radical e espantosa do autor deste grande livro. Arriscamo-nos a banalizar os diálogos entre Job e os seus “amigos”, porque grande demais parece a diferença entre as palavras de Job, enormes, e as dos interlocutores. Escapa-nos, assim, que as posições dos “amigos” eram expressão da melhor teologia do tempo, como muito bem sabiam o autor do livro e os seus primeiros leitores-ouvintes.

Diversamente de quanto sucede hoje, o primeiro processo de identificação de quem escutava o poema de Job verificava-se com as teologias dos amigos, não com a vítima. Herético era o homem do monte de esterco. O grande e revolucionário objetivo do livro era, pois, conduzir os ouvintes a abandonar, pelo menos a tentarem pôr profundamente em crise, a sua teologia e a sua religião, e iniciarem o caminho para uma nova ideia de Deus e de justiça. Para os leitores de hoje, que conhecemos a Bíblia toda e que a lemos, talvez, da perspetiva dos Evangelhos, de Paulo, do Humanismo e da Modernidade, é quase impossível não perder a tensão dramática da narrativa. Para entrar no âmago deste livro – e chegou o momento de fazê-lo – precisamos, pelo menos, de tentar uma operação difícil e decisiva: não identificar-nos demasiado depressa com Job sem antes sentir na nossa carne a insuficiência das respostas a questões que hoje nos chegam dos Job que vivem nas periferias da nossa história.

Só quando tivermos entendido que as nossas respostas são radicalmente inadequadas e insistem em “atormentar” as vítimas do nosso tempo, só então deveremos chegar a Job. Não é possível entender as perguntas de Job sem atravessar a pobreza das nossas respostas. Os amigos de Job somos nós. Aqui e hoje. E Job está sempre longe e esquecido sobre os montes de esterco que continuamos a produzir. Chegados a meio do livro, a tese dos três interlocutores de Job torna-se mais essencial e sintética. Sofar diz: "Não sabes que é assim desde o princípio, desde que a Humanidade existe neste mundo? Que a satisfação dos maus não vai longe e a felicidade dos ímpios é passageira?" (Job 20,4-5). Recorda a única explicação possível da condição de infeliz em que Job se encontra: a lógica retributiva.

Se caíste em desgraça, tens que ser culpado, tens que ser mau. Job não cedeu nunca a esta explicação; era contrária à sua verdade de justo e infeliz. No centro do seu diálogo com Deus e com os homens, enfrenta diretamente esta teologia “económica” do seu tempo. Para a desmontar pede ajuda à história, aos “viajantes” da terra que conhecem bem a vida e os homens. Mas antes pede que o escutem: "Ouçam atentamente as minhas palavras. Seja essa a consolação que vocês me dão". (Job 21,2). Sabe que está perto do cume do seu processo a Deus e à religião e por isso diz aos seus interlocutores que "ficarão mudos de espanto" (21,5); prepara-os para a grande admiração, para o escândalo que as suas palavras extremas irão neles provocar; não é de excluir que o redator destes capítulos centrais tenha tido que emendar e censurar algumas questões extremas e escandalosas de Job. Mas Sofar, Elifaz e Bildad não foram capazes de o escutar, continuaram a não calar, a falar, a acusar.

A escuta verdadeira e profunda é amor, ágape, exige benevolência, confiança, amizade, ingredientes de que não dispunham os três “amigos”. Job sabe disso, mas pede igualmente que o escutem porque os seus verdadeiros ouvintes somos nós. Nós é que somos convidados a calar, a escutar, a ficar mudos de espanto. O primeiro sinal de que a fé é já ideologia é o não ser já capaz de calar perante a dor do mundo. Assim, depois de chamar em causa a terra, depois de ter desejado confiar o seu grito infinito à pietas das futuras gerações, gravando-o na pedra, para refutar os seus “amigos” chama em causa a evidência histórica; a vida das pessoas reais, não a que imaginam aqueles que raciocinam sobre Deus sem conhecer e escutar os homens: "Já perguntaram às pessoas que viajam? Não acreditam naquilo que elas contam? " (21,29). É na terra de todos que Job encontra provas para mostrar que as teologias do seu tempo são falsas: "Porque é que os maus podem continuar a viver e ficam mais ricos conforme vão envelhecendo?… As suas casas estão em paz e sem medo; o castigo de Deus não pesa sobre eles. O seu touro vai fecundando as vacas e estas dão à luz sem perder as suas crias… Passam a vida satisfeitos e descem em paz ao sepulcro". (21,7- 13).

É a vida real a base da não verdade dos teoremas dos seus amigos. É preciso conhecê-la, vê-la, e aprender com ela uma religião e uma teologia mais verdadeiras. Ontem, hoje e sempre. É simples demais estar do lado de Job e demonstrar, com a sua evidência e com a nossa, que o mundo não responde à demasiado simples lógica retributiva. São demasiados os maldosos que acumulam muita riqueza iníqua, que depois deixam aos filhos; e são ainda mais os justos empobrecidos pela desventura. Mas temos a certeza de que Job tem razão? É verdade que não existe qualquer nexo entre a nossa conduta ética e a felicidade, nossa e dos próprios filhos? Não é para esse plano que Job quer conduzir o diálogo connosco. Ele sabe que se perguntarmos mesmo aos viajantes e observadores do mundo eles falar-nos-ão de maldosos felizes, maldosos infelizes, de justos felizes, e justos infelizes. A Job não interessa defender a tese oposta à dos seus “amigos”: sabe que é igualmente frágil. A sua argumentação é diferente e muito mais interessante: punir os maldosos e recompensar os justos nesta terra não pode ser a “tarefa” de Deus. Seria um deus demasiado banal; seria apenas um ídolo, porque construído à nossa imagem e semelhança.

O mundo não é deixado ao acaso; a Providência deve agir nele, Job não o nega; mas convida-nos a procurar registos diversos dos da teologia do seu tempo (e do nosso). Job procura um outro Deus; e procura-o também para o defender da verdade da história. Job recorda-nos, então, que quem acredita em Deus e o ama não deve contar teologias que não se sustentam perante a evidência histórica. E, no entanto, são muitas, as nossas narrativas sobre Deus que outra coisa não fazem senão associá-lo à nossa banalidade; que são necessariamente desmentidas pela verdade das questões de Job e pelos relatos dos viajantes. Job pede apenas mais silêncio, que se ponha mais a mão na boca, para podermos ser surpreendidos pela verdade que acontece na história, que não pode ser contra a verdade de Deus. Apela a uma religião que saiba dar conta das alegrias e dos sofrimentos concretos das pessoas reais.

O resto não passa de vaidade e falsa consolação: "E ainda pretendem confortar-me com ilusões! As vossas respostas são puro engano" (21,34). Saber calar e não deixar sair da boca as nossas respostas certas para escutar os gritos dos Job do tempo que se vive foi importante em todas as épocas, mas foi e é essencial nos grandes momentos de transição, quando as respostas oficiais das religiões, das culturas e das filosofias já não bastam para responder às questões mais difíceis dos justos e das vítimas inocentes, quando as explicações convencionais do sofrimento, da morte, da fé, já não chegam para satisfazer Job.

É sobretudo nestes momentos que é preciso colocar-se em escuta profunda do homem de Uce, e deixar-se converter. Se o não fizermos, as religiões ficam bloqueadas dentro de ideologias, os ídolos tomam o lugar da fé. Hoje, também, Job já não entende as nossas respostas; não o confortam, são para ele um tormento. E convida-nos, pelo menos, a ficarmos calados, a escutá-lo. Existem muitos gritos de quem aspira a um Deus diverso; elevam-se ao céu, são emudecidos pelas nossas respostas demasiado simples, pouco solidárias, distantes das pessoas; respostas que não sabem escutar os viajantes do nosso tempo. A Bíblia foi capaz de escutar o grito escandaloso e incómodo de Job, gravou-o para sempre na sua pedra e com isso conferiu-lhe a maior dignidade.

Seremos nós capazes de fazer hoje o mesmo com os gritos e perguntas que põem em crise as nossas teologias? Seremos capazes de novos poemas escutando a voz das vítimas do nosso tempo? Ou, no drama da vida, continuaremos a usar as máscaras dos amigos de Job? A nova primavera das religiões e das civilizações começa quando os amigos de Job aprendem a calar, abandonam velhas e inadequadas certezas, e se põem à escuta dos gritos das vítimas, dos afastados, dos pobres, sentados com eles nos seus montes de esterco.

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Um homem chamado Job/8 – A verdade da vida está nas perguntas jovens e pobres

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 03/05/2015

logo Giobbe"…E não espero ninguém: / entre quatro paredes / espantadas de espaço / mais que um deserto / não espero ninguém: / mas deve vir; / virá, se eu conseguir / nascer sem ser visto, / virá de improviso, / quando menos me der conta: / virá quase perdão / de quanto faz morrer, / virá dar-me a certeza / do seu e meu tesouro, / virá como repouso / das minhas e suas penas, / virá, está chegando, talvez, o seu murmúrio..."

Clemente Rebora, Canti Anonimi

Existe uma alternância entre fé e ideologia, religião e idolatria em pessoas, comunidades, civilizações e fés. No início do caminho é-se seduzido por uma voz que chama: acredita-se e parte-se. Mas depois de percorrer parte do caminho, por vezes bem longo, quase sempre se cai na ideologia, quando não na idolatria. É uma saída muito provável, talvez mesmo inevitável, porque ideologia e idolatria são produtos naturais da fé e da religião. A leitura honesta e nua do livro de Job – não é por acaso que se encontra no centro da Bíblia, cujo principal inimigo é a idolatria – é cura poderosa para estas graves doenças da religião, já que obriga a abandonar respostas amadurecidas e conquistadas com esforço ao longo de boa parte da vida, para regressar, humildes e verdadeiros, às primeiras perguntas da juventude.

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A revolução da escuta

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Um homem chamado Job/7 – Quem resgata o pobre serve o irmão e o Deus dos vivos

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 26/04/2015

logo Giobbe"O meu último alento será para ti; no teu nome de mãe está toda a minha vida. Estou sereno e inocente. Podes estar de cara levantada pelo motivo por que vou morrer; e diz mesmo que o teu menino não tremeu e que morreu pela liberdade. Agora perdoo a todos; adeus, mamã, papá, Stefano, Alberto; adeus a todos. Tudo está pronto, estou sereno. Adeus mamã, mamã, mamã, mamã…"

(Cartas dos condenados à morte pela resistência, Domenico, 29 anos)."

Muita fé renasceu graças à fraternidade solidária, capaz de acompanhar até ao fundo a escuridão do homem que brada para um céu que lhe parece vazio ou hostil. Mas não é menos frequente, também, em torno de desesperados sentados em montes de esterco pelo mundo fora, que haja discursos vazios e perseguições de ‘amigos’ não solidários que não veem a verdade, muitas vezes escondida por silêncios de fé e ‘litígios’ com Deus; pretendem encher o céu vazio dos outros com as suas palavras vazias. Continua assim a ecoar na nossa terra o lamento de Job: “Até quando me vão atormentar e ferir com as vossas palavras?” (Giobbe 19, 2).

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Também no segundo diálogo-acusação, Bildad de Chua reafirma, com maior agressividade, as suas teses perfeitas, como todos os teoremas sem carne nem sangue. Tu, Job, não podes mudar a ordem do mundo. O justo vive e é premiado, o malvado perece e sofre: “Será que por ti a terra se vai despovoar e os rochedos vão sair do seu lugar?” (18, 4-6). Descreve em pormenor a sorte do ímpio e do pecador, que coincide perfeitamente com a situação de Job. Com uma única, radical, diferença: Job é um homem justo.

Segue-se, agora com maior força e convicção, a grande, louca e admirável hipótese de Job: “Fiquem sabendo que foi Deus que me desorientou, atirando sobre mim a sua rede” (19,6). Como Bildad, Job acredita na ordem divina do mundo; e, para evitar o ateísmo, toma Deus de tal maneira a sério que lhe atribui a sua desventura. E urla, procurando ajuda: “Se eu gritar injustiça, não obtenho resposta; se peço socorro, ninguém me vem defender” (19,7).
Violência” (hamas) era um grito, um berro, com uma específica valência jurídica. Quando alguém em extrema dificuldade gritava ‘justiça!’, criava nos outros uma obrigação de socorrer – algo de semelhante a um SOS lançado por um navio, que obriga quem o interceta a intervir em sua ajuda. Mas Deus continua mudo perante o SOS extremo de Job; é ele mesmo o autor da violência. Para Job, Deus ouviu o grito e nada faz. Diversamente de muitas lamentações na Bíblia e fora dela, o Deus de Job não é surdo mas é seu inimigo: “Voltou-se contra mim enfurecido e tratou-me como um inimigo seu” (19,11). A quem gritar, então? Resta a esperança nos amigos: “Intercedam por mim, meus amigos, intercedam por mim, porque a mão de Deus foi muito dura para comigo” (19,21). Ficando sozinho no mundo, Job tinha rezado à terra (16,18), e agora pede aos amigos. É uma oração toda terrestre; sob um céu fechado e hostil, torna-se um último apelo à solidariedade dos homens. Uma oração semelhante à que o condenado dirige aos carcereiros, recordando-lhes a comum condição humana. O apelo à fraternidade como último recurso.

Muita solidariedade humana nasceu e renasceu de orações horizontais, de desesperados gritos pedindo ajuda, recolhidos por companheiros quando o céu parecia fechado, quando os ‘advogados’ de Deus tinham conseguido convencer-nos de que as suas respostas óbvias e académicas eram mesmo as de Elohim. Mesmo quando parece o único, o grito para o outro homem é quase sempre um segundo grito, já que o pobre tendo lançado o primeiro grito para o alto fica sem resposta. Esta fraternidade que nasce do saber recolher os gritos de dor, não pode ser inimiga de Deus, mesmo quando não sabe pronunciar o seu nome nem reconhecer a sua voz. O inimigo da oração não é o outro homem solidário; é o narcisismo de quem só fala consigo mesmo, com os ídolos e bens de mercado. Também uma oração que procura um amigo pode ser alta oração, e a solidariedade humana que nasce do silêncio de Deus pode ser mais verdadeira e espiritual que as dirigidas ao deus banal dos aduladores de Deus e por isso inimigos de Job.

O grito por piedade humana de Job fica sem resposta. Também os amigos emudecem. Mas a sua busca extrema de justiça continua, abrindo para nós um outro céu: “Oxalá as minhas palavras pudessem ser escritas e gravadas numa inscrição ou num livro” (19,23). Job deseja que as suas palavras sejam gravadas “a ferro e chumbo” (19,24), esculpidas na pedra; que não morram com ele. Quer deixar o seu testamento, como última mensagem – em todo o seu drama há um imenso amor pela humanidade. A Bíblia foi essa pedra. Está aqui, também, o mistério da palavra: enquanto Job pronunciava aquele grito – ‘Oxalá as minhas palavras pudessem ser escritas’ – as suas palavras estavam realmente a ser escritas, para que nós pudéssemos recebê-las. Desvela-se então uma chave de leitura profunda de todo o livro de Job: os amigos capazes de pietas a quem Job implora solidariedade somos nós, os leitores destinatários do seu canto; podemos recolher hoje o seu SOS e responder-lhe. Todo o grito que ficou por escutar conservado na Bíblia – incluindo o grande grito do Gólgota – dirige-se a nós. A Bíblia não é apenas uma grande recolha de salmos, verdades divinas, orações; nem tampouco uma descrição de Deus para os homens. Antes de tudo isso, a Bíblia é uma grande descrição do homem para o homem sob um céu habitado. A Bíblia é um humanismo que nos convida a tentar responder às mulheres e aos homens quando as respostas do SENHOR não existem. Toda a Escritura é um SOS lançado à nossa humanidade, um chamamento a que nos tornemos verdadeiramente humanos, a fazer nosso o grito de justiça do homem chamado Job e de todos os seus irmãos e irmãs que a gritam ao longo da história, que enriqueceram o seu primeiro canto e que invocam a nossa piedade.

Para o humanismo bíblico não bastam as respostas de Deus que muitas vezes se cala para deixar espaço à nossa responsabilidade. Se Elohim não se tivesse calado durante quase todo o livro, não teríamos tido as grandes perguntas de Job e o seu ansioso pedido de justiça não teria abraçado e recolhido todo o desespero da terra, salvando-a. Deus precisa de saber ficar calado, se quer homens responsáveis e capazes de fazer perguntas não banais.

Mas a Bíblia não é o único cofre onde se guardam mensagens últimas da verdadeira condição humana. Muita literatura nasceu e continua a nascer como testamento – talvez toda a grande literatura nasça assim. Muitas palavras últimas, muitos gritos lançados ao céu e aos homens foram escritos procurando fraternidade dentro de fratricídios. Muitas destas palavras se perderam; mas muitas outras soubemos recolhê-las e guardá-las. Os lager, as prisões, mortes em solidão, foram montes de esterco capazes de dar vida, também, a maravilhosas flores. Milhares de poesias, diários, cartas enviadas da frente de guerra, música, canções, arte e até lápides, deram sequência ao grito mendicante de Job. Quando um condenado à morte confia a sua última mensagem ao papel para que chegue até alguém, a sua esperança vive. Uma carta ou uma poesia podem, então, fixar para sempre um último momento de esperança. Tornam eterna a esperança, não deixam que ela morra – a morte pode ser vencida também pela nossa palavra.

No auge destas orações-grito de Job, eis que, inesperado e estupendo, floresce um autêntico cântico de esperança: “Eu sei que o Deus da vida é o meu libertador [goel] e ele tem a última palavra contra a morte” (19,25) . Uma esperança que chega como um arco-íris, quando ainda é forte a tempestade. A esperança verdadeira é sempre assim: não é fruto da nossa virtude ou mérito; é tudo e apenas graça, charis, dom. Por isso sempre nos surpreende, deixando-nos sem fôlego; se não nos surpreende e se faz preanunciar, é esperança pequena ou vazia.

Quem é o libertador, o goel, que Job deseja, por quem anseia e chama do fundo da sua esperança desesperada? Não sabemos. É talvez um outro Deus, um Deus mais verdadeiro que o que sente como inimigo. É a esperança dentro do desespero que faz ressurgir a fé, porque a chama a transcender-se, a tornar-se naquilo que ainda não é. Esperando no goel, o libertador do pobre inocente, vê-o já surgir na linha do horizonte. Nas noites da fé, de qualquer fé, recomeça-se sempre da esperança, reaprendendo a esperar e reaprendendo-o muitas vezes (como o arco-íris, a esperança-dom chega esplendorosa e, como o arco-íris, se dissolve).

Não sabemos em que goel Job espera. Sabemos que não lhe basta a recompensa no paraíso, até porque não sabe que existe. O Deus destes livros bíblicos é o Deus dos vivos, não dos mortos. Não pode ser verdadeiro um Humanismo bíblico que remeta o resgate das vítimas inocentes para o eschaton, para o além. O goel em que espera Job deve chegar e elevar-se do pó da nossa condição humana de viventes. A terra prometida é a nossa terra. Toda a promessa de resgate das vítimas que não se torna empenho concreto para as libertar aqui e agora, acaba por ser desumanismo e esperança enganadora. Job deseja ver o seu goel chegar ao pó do seu monte de esterco, vê-lo com os seus próprios olhos: “Hei-de vê-lo com os meus olhos, sem estranhar” (19,27) .

O goel não será um ídolo se souber chegar até ao pó das vítimas, se nos cruzarmos com ele junto à nossa casa, se o descobrirmos em mulheres e homens da nossa terra, capazes de escutar o grito de Job e de lhe responder. Muitos pobres não viram nunca chegar o goel aos seus montes de esterco, e esperam. Job continua a chamar a terra, os homens, Elohim. Para eles e para nós.

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Um homem chamado Job/7 – Quem resgata o pobre serve o irmão e o Deus dos vivos

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire, 26/04/2015

logo Giobbe"O meu último alento será para ti; no teu nome de mãe está toda a minha vida. Estou sereno e inocente. Podes estar de cara levantada pelo motivo por que vou morrer; e diz mesmo que o teu menino não tremeu e que morreu pela liberdade. Agora perdoo a todos; adeus, mamã, papá, Stefano, Alberto; adeus a todos. Tudo está pronto, estou sereno. Adeus mamã, mamã, mamã, mamã…"

(Cartas dos condenados à morte pela resistência, Domenico, 29 anos)."

Muita fé renasceu graças à fraternidade solidária, capaz de acompanhar até ao fundo a escuridão do homem que brada para um céu que lhe parece vazio ou hostil. Mas não é menos frequente, também, em torno de desesperados sentados em montes de esterco pelo mundo fora, que haja discursos vazios e perseguições de ‘amigos’ não solidários que não veem a verdade, muitas vezes escondida por silêncios de fé e ‘litígios’ com Deus; pretendem encher o céu vazio dos outros com as suas palavras vazias. Continua assim a ecoar na nossa terra o lamento de Job: “Até quando me vão atormentar e ferir com as vossas palavras?” (Giobbe 19, 2).

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A palavra que vence a morte

Um homem chamado Job/7 – Quem resgata o pobre serve o irmão e o Deus dos vivos por Luigino Bruni Publicado em Avvenire, 26/04/2015 "O meu último alento será para ti; no teu nome de mãe está toda a minha vida. Estou sereno e inocente. Podes estar de cara levantada pelo motivo por que vou morrer; e di...
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Um homem chamado Job/6 – Faz-se justiça quando não se "disfarça" o sofrimento dos justos

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 19/04/2015

logo Giobbe"Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra [...]
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal"

(S. Francisco, O cântico das criaturas)

Culpa e dívida são grandes temas da vida de toda a gente. Em alemão dizem-se quase com a mesma palavra: schuld e schuldig. Nascemos inocentes e podemos assim manter-nos a vida toda. Como Job. A morte de um menino é morte inocente; mas também muitas mortes de idosos são igualmente inocentes. Ao contrário dos ídolos, Deus deve ser o primeiro a ‘levantar a sua mão’ em nossa defesa, a acreditar na nossa inocência contra todas as acusações dos nossos amigos, das religiões, das teologias. As prisões continuam cheias de escravos acusados de dívidas inexistentes, os carcereiros continuam a enriquecer traficando com as suas vítimas inocentes, ansiosas por liberdade.

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Após o primeiro ciclo de diálogos entre Job e os seus três ‘amigos’, entramos agora num novo ato do livro; um após outro, cada um dos amigos retoma a palavra para repetir, exasperando-as, as próprias críticas, acusações, teorias e sermões. No centro da cena, sobre o montão de esterco, Job continua a colocar questões maiores, à espera de respostas diversas. Não exercita a sua paciência com Deus (perante o qual é radicalmente impaciente) mas com os seus ‘amigos’. Depois de ouvir as respostas de Job, também Elifaz, o amigo que primeiro tomara a palavra (cap. 4), torna-se agressivo e ataca: “Quem é sábio não dá respostas ocas, nem se alimenta de ideias vazias como o vento” (15,1-3). Explicita a acusação: “Tu destróis os sentimentos religiosos, desprezas o espírito de oração” (15,4). Acrescenta: “Como é que um homem se pode considerar inocente? Como pode um simples mortal pensar que tem razão?” (15,14). Job responde: “Já ouvi milhares de palavras iguais a essas. Em vez de confortarem, vocês ainda afligem mais, dizendo-me: «Quando acabam essas palavras vazias?»” (16,1). E reafirma o termo de acusação: “Deus veio arrancar-me ao meu sossego, agarrou-me pelo pescoço e despedaçou-me” (16,12).

Nesta nova variante do tema dominante do canto desesperado – eu sou inocente, é Deus que precisa de explicar o que está a fazer comigo e com todo o sofrimento injusto da terra – estão inseridas preciosíssimas pérolas.

Não confortado, exasperado pelas respostas banais até então recebidas dos amigos, sobre o silêncio de Deus, Job continua a pedir um árbitro e juiz neutro que possa provar a sua inocência para então emanar uma sentença justa: “Mas deve haver certamente, no céu, uma testemunha que seja por mim … Que esse sirva de árbitro entre o homem e Deus, como acontece em questões entre homens” (16,19-21). Tendo já recorrido à linguagem do direito processual, Job passa ao registo comercial. Invoca a figura do fiador, pede a Deus que lhe aceite uma caução: “Dá-me, por favor, alguém como fiador diante de ti, alguém que me segure pela mão e apoie” (17,3). Com a sua reputação ou património, o fiador garantia um débito perante o credor, associando-se à sua responsabilidade em caso de insolvência – um instituto semelhante à nossa caução. O fiador (mallevadore ou mallevatore, em italiano) comprometia-se solidariamente com o devedor, garantindo por ele, levantando a mão (manumlevare: mallevare). É pois muito forte e tremenda esta oração de Job; o livro de Job contém muitas orações diversas e esplêndidas, sobretudo para quem esgotou já as suas e procura outras mais verdadeiras. Prostrado pela dor, pelas não respostas dos discursos académicos dos amigos, Job eleva a Deus um novo grito: sê tu o meu fiador, levanta a tua mão por mim! Mas como é possível que o credor, Deus, seja também o fiador do débito (de Job)?

Estamos perante uma outra passagem estupenda. Com os seus olhos embaciados mas que tinham adquirido uma visão diversa, Job tenta entrever dentro do Deus de todos um Deus mais escondido, mais profundo e verdadeiro do que o que tinha conhecido na juventude. Deverá existir um rosto de Elohim que está do lado do pobre ou do injustamente oprimido, disposto a levantar a mão por ele. Job está pedindo a Elohim que seja aquilo que não parece ser ainda. Se o Deus bíblico é chamado justo, bom, lento para a ira, misericordioso, será então possível dirigir-se a um rosto de Deus sem negar os outros. E será também possível procurar um rosto novo – “é a tua face que eu procuro, SENHOR.” (Salmo 27,8). Quando não é magia ou fruto do medo de Deus ou do medo de viver, a oração é sempre chamar alguém pelo nome, pedir-lhe que seja alguma coisa que não é ainda – e nós com ele. Job é acusado de insolvência, posto de rastos por débitos que não existiam e lhe eram imputados. No mundo antigo (e hoje ainda assim é) quem não pagasse as dívidas tornava-se escravo; e não raramente morria na prisão. Do fundo do seu cárcere, Job lança ao céu: Tu sabes – pelo menos uma nesga de ti deve saber – que a acusação que aqui me trouxe não é verdadeira, que as minhas dívidas não passam de falsas acusações. Hei de demonstrá-lo, ou antes, tu mesmo hás de dizer a toda a gente os verdadeiros motivos da minha bancarrota; mas agora, no abandono, peço-te: sê tu o meu garante. Eleva a tua mão por mim. Tu, pelo menos – rosto diverso do único Deus – dá-me confiança!

É forte este pedido extremo de confiança que todos os dias se eleva de muitos justos. Fora e dentro das prisões, o mundo está cheio de inocentes que repetem a oração de Job: se sou justo – sei que o sou e não quero deixar de me considerar inocente, porque o sou – haverá de existir, na terra ou no céu, alguém que acredite em mim, que me há de dar crédito! Demasiadas vezes este fiador das vítimas justas não existe, ou não se encontra; não responde. Job grita, continua a gritar, também por aqueles que nunca encontraram defensor. Sem forças, no fundo do poço da humilhação extrema, Job reconhece dentro de si aquela antiga voz: “E contudo não cometi nenhuma injustiça e a minha oração é sincera” (16,17). Se Job tivesse cedido às exigências dos amigos, admitido a sua culpa, não teria permitido a Deus que se tornasse o garante de última instância dos pobres e das vítimas. A fé de Job em um Deus diverso e mais humano obrigou Deus, através de todos os livros da Bíblia e ao longo da história, a mostrar um seu rosto diverso e novo. Não alargou apenas o horizonte do humano bom amigo de Deus; Job alargou também o horizonte de Deus com os homens. Se é verdade que o homem, na relação com o Deus bíblico, aprendeu a tornar-se mais homem, paradoxalmente, é verdade também que, na relação com os homens, o Deus bíblico ‘aprendeu’ a mostrar-se à altura das suas promessas mais altas. O Deus dos filósofos nada tem a aprender da história e é quase sempre inútil à vida dos pobres. O Deus bíblico é um Deus diverso. Perguntemo-lo a Job ou a Maria, que viu um menino tornar-se homem, um crucificado ressuscitar.

Mas não ficam por aqui as pérolas destes capítulos; enquanto invoca aquela garantia extrema, Job sente a morte já muito próxima: “Tenho a cara negra de tanto chorar e a escuridão cobre os meus olhos” (16,16) . Brota da sua alma uma oração nova, das mais belas de toda a Escritura. Uma frase, uma seta de luz contida num só versículo: “O Rabino que me ensinava hebraico não conseguia ler este versículo por causa da emoção” (Guido Ceronetti, Il libro di Giobbe). Alguns versos da Bíblia apenas se podem entender quando não se consegue pronunciá-los por causa da dor: “Ó terra não escondas o meu sangue e não haja sepultura para o meu grito” (16,18).

No momento em que Job sente certa a derrota e a morte, baixa os olhos, vê a terra e chama-a pelo nome. Esmagado e fracassado, aprende a rezar a terra. Esta oração – que é o oposto dos cultos fora de época à deusa mãe – é o canto do terrestre, do adam que com o rosto no pó consegue falar à terra (adamah), vê-la e senti-la diversamente, como uma amiga leal. E chama irmãs às minhocas e irmãos aos vermes que hão-de comer-lhe o corpo, como ele habitantes da mesma terra. São precisos os estigmas para sentir e chamar verdadeiramente irmãs a terra e a morte.

A terra escutou a oração de Job. Não escondeu o sangue de muitos justos, continua a conservar a memória do grito de Job e seus irmãos. Cada pessoa, cada comunidade, cada cultura tem os seus lugares que continuam o grito de Job e dos inocentes: as estelas, os monumentos, o quarto do filho, muita poesia e arte que guardam gritos da alma – mesmo se é ainda demasiado o sangue espiritual disperso, soterrado e bebido pela terra, por falta de poetas e artistas, ou por ser secreto e grande demais para ser visto por alguém. São lugares que conhecemos e reconhecemos; e ficamos gratos à terra e seus habitantes por não os terem escondido, por terem permitido que o canto-grito de Job se não extinguisse na garganta do mundo. Há que pedir à terra, suplicar-lhe, que não cubra o sangue dos justos porque a vida quereria e deveria soterrá-lo. O amor humano pede à terra que esqueça, sepultando-a, a grande dor – e Job desenterra-a por um amor mais verdadeiro.

A terra não absorveu o sangue de Abel, quando um irmão ‘levantou a mão’ não para proteger, mas para matar; e o cheiro desse justo chegou a Deus (Génesis, cap. 4). Um outro justo, Job, pede à terra que não enxugue o seu sangue porque quer que o seu cheiro chegue até nós. O seu grito vivo pede-nos que nos tornemos fiadores, responsáveis e solidários com as tantas vítimas inocentes. Seremos capazes de levantar a nossa mão para as salvar?

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Um homem chamado Job/6 – Faz-se justiça quando não se "disfarça" o sofrimento dos justos

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 19/04/2015

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Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal"

(S. Francisco, O cântico das criaturas)

Culpa e dívida são grandes temas da vida de toda a gente. Em alemão dizem-se quase com a mesma palavra: schuld e schuldig. Nascemos inocentes e podemos assim manter-nos a vida toda. Como Job. A morte de um menino é morte inocente; mas também muitas mortes de idosos são igualmente inocentes. Ao contrário dos ídolos, Deus deve ser o primeiro a ‘levantar a sua mão’ em nossa defesa, a acreditar na nossa inocência contra todas as acusações dos nossos amigos, das religiões, das teologias. As prisões continuam cheias de escravos acusados de dívidas inexistentes, os carcereiros continuam a enriquecer traficando com as suas vítimas inocentes, ansiosas por liberdade.

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A memória viva da terra

Um homem chamado Job/6 – Faz-se justiça quando não se "disfarça" o sofrimento dos justos por Luigino Bruni Publicado em Avvenire 19/04/2015 "Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra [...] Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal" (S. Francisco, O cântico das criatu...
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Um homem chamado Job/5 – O falso amor de quem defende o Senhor para se louvar a si mesmo

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 12/04/2015

logo Giobbe"Vamos para fora. Vamos pedir que passe todo este mal estar. A quem o vamos pedir? À vinha, que é toda ela uma explosão de folhas novas ao ramo da acácia com os seus rebentos de hera e erva irmãs imperatrizes que são manto estendido e potentíssimo trono"

(Mariangela Gualtieri, de Aos meus imensos mestres)

Muita gente – economistas, filósofos, intelectuais – constrói teorias para legitimar a miséria no mundo; dizem que é consequência da preguiça dos pobres, que está inscrita, talvez, nos seus genes. Põem de lado, ignoram, ridicularizam Job e os seus grandes pedidos de esclarecimento; quem tenta defender a verdade dos pobres e as suas razões vê-se rodeado por mil ‘amigos de Job’, condenado e escarnecido. Os falsos amigos de Job não são uma raça extinta: com as suas ideologias continuam a humilhar, a desprezar e condenar os pobres.

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A acusação de Sofar, o terceiro ‘amigo’, é clara e sem piedade: Job é um falso inocente, um fanfarrão; por detrás de uma cortina de palavras, esconde os seus pecados: “Sofar de Naamá disse, em resposta: «Será que tanto palavreado vai ficar sem resposta? Será o muito falar que dá razão a alguém?” (11,1-2). Job responde: “Realmente, vocês sentem-se importantes e pensam que, quando morrerem, se acaba a sabedoria! Mas eu também tenho inteligência e não sou menos do que vocês” (12,1-3). Job quer respostas diversas e novas de Deus, não se contenta com as dos teólogos consumistas de sabedoria: “Aquilo que vocês sabem também eu sei, não sou menos que vocês. Quem me dera poder falar com o Todo-Poderoso” (13,2-3). Quer conhecer a versão dos factos diretamente de Deus. Não quer escutar os defensores profissionais, quer ouvir a voz do imputado.

Para celebrar a infinita e insondável sabedoria de Deus, Sofar agride, condena e humilha o homem Job. Este, pelo contrário, situa-se do lado da terra, é inteiramente solidário com a humanidade (com o Adam, o terrestre). Não louva Deus contra o homem, não é um adulador. Mas, tal como ontem, são também hoje legiões os aduladores de Deus, como Sofar e os outros amigos que defendem Deus para se louvarem a si mesmos, sem amar verdadeiramente, nem Deus, nem os homens.
Para defender Deus, os três amigos ofendem o homem e negam a evidência (conheciam Job e sabiam que era justo). Seguem a teologia fria dos teoremas, que louva Deus para se louvar a si própria. É ideologia, e portanto idolatria. Pelo contrário, uma teologia não ideológica é, acima de tudo, humanismo, fala bem do homem a Deus, antes de falar bem de Deus ao homem. A verdade, a bondade, a beleza divinas não podem ser defendidas contra a verdade, a beleza e a bondade humanas. Os que o fizerem negam o humano, a terra, Deus.

A experiência concreta e encarnada de Job – justo injustamente caído em desgraça – é o primeiro dado de facto de que deveria ter partido Sofar. Mas, como todos os falsos profetas e falsos sapientes, defende Deus que não precisa dessa defesa, para se salvar a si mesmo e a sua ‘verdade’ teológica. Os diálogos de Job com os amigos são, pois, uma crítica à religiosidade inimiga do homem (e de Deus), às ideologias, às filosofias, à religião reduzida a ética.
Job denuncia os moralistas que não olham o mundo a partir do monte de esterco e que, como Sofar, se tornam agressivos. Quando se olha a história e o presente, é impressionante a quantidade de teólogos, filósofos, moralistas que usaram e usam (a respetiva ideia de) Deus para construir uma pirâmide com o único objetivo de subirem para cima dela, ao lado ou acima de Deus (enquanto arquitetos e construtores). O verdadeiro teólogo é portanto Job, o que pede a Deus que ‘acorde’ para estar à altura do sofrimento do mundo.

A meditação destes capítulos centrais do livro de Job faz-nos, pois, descobrir que o homem chamado Job é símbolo de muitas realidades, todas elas decisivas. Antes de mais revela algumas dimensões essenciais do mistério da verdade. A vítima, o pobre, têm uma via privilegiada para a sabedoria, acedem a uma verdade mais verdadeira. Quando se atinge a condição humana extrema, quando caíram todas as pontes atrás de nós e nenhuma terra prometida se apresenta à nossa frente, pode apenas procurar-se a verdade pela verdade; e muitas vezes descobre-se essa verdade, ou melhor, descobrimo-nos imersos nela. É esta verdade, porventura apenas esta verdade, que permite a quem a ‘possuir’ (melhor seria dizer, a quem por ela for habitado) não a usar em benefício próprio, não a consumir; como quando, se descobre uma flor rara de montanha e em vez de a colher para perfumar e tornar bonita a nossa casa, se deixa ficar no prado de toda a gente. É esta gratuidade que faz com que a verdade, toda a verdade, seja humilde, casta, pura, preciosa. Ágape.

Job é um ícone altíssimo da fé bíblica, também: uma contínua e incessante busca de verdade que, para ser autêntica, para ser amor, deve ser gritada juntamente com Job, sentados em montes de esterco da terra, sem nunca deixar de sentir-se irmãos e irmãs de toda a gente e de tudo. Mas Job é também paradigma de quem recebeu uma vocação verdadeira – religiosa, laica ou artística. Quando alguém se põe a caminho seguindo uma voz boa que chama (de fora e dentro) chegará inevitavelmente a etapa de Job: há de ver-se sentado sobre o lixo próprio e da cidade e nasce então uma necessidade absoluta de verdade sobre a própria história, Deus, a vida; já não serão suficientes pequenas verdades e respostas simples. Quem deu tudo pode e deve pedir tudo. Entende-se – com Job – que as respostas às próprias questões de verdade não são para si mesmo, mas para toda a gente; nasce uma amizade com os homens, as mulheres, a natureza que não é fruto de virtudes mas só e apenas dom.

É esplêndido, por fim, o cântico cósmico de Job. Na sua condição de amante pobre e desinteressado da verdade, Job experimenta na sua carne ferida a unidade e a comunhão com toda a criação. Inclui no seu canto animais, terra, plantas, palha; entende-os, ama-os, trata-os como irmãos: “...pergunta aos animais que eles te informarão, todas as aves to dão a conhecer. Vai falar com a terra que ela te informará, os peixes do mar contar-te-ão como é.” (12,7-9). Visto do monte de esterco, tudo se torna vivo, tudo nos fala, tudo está em oração. Mas para ver esta vida e esta oração mais profunda do universo é necessário amar a verdade por si mesma. Assim, apenas assim, é possível descortinar uma fraternidade cósmica; da dor do mundo floresce uma comunhão com a erva, com o passarinho, com as pedras, as estrela, com o ónagro , com o velho que se apaga numa cama de hospital. Aprende-se a ver e a contemplar a inocência e a verdade dos animais e de toda a vida não-humana: apenas os homens sabem ser falsos, aduladores e idólatras; não os animais ou as plantas. No mundo verdadeiro de Job há uma verdade mais radical do cosmo: pedras, águas, árvores, raízes e folhas compõem um único cântico da terra que na garganta de Job – sem fôlego, mas vivíssima – se torna palavra. A fragilidade da condição humana efémera faz com que Job se sinta ainda mais criatura. A morte do homem é mais desesperada que a da árvore (cortada pode ter esperança de voltar a germinar e a ter rebentos: 14,7); é irmã pobre da morte do rio e do lago que secam por falta de água (14,11). Toda a criação é vulnerável e caduca (a montanha que se desfaz, as pedras desgastadas pela água: 14,19-20); como tudo, como nós.

Esta vulnerabilidade cósmica, esta espécie de dor universal pelos sofrimentos sem explicação de animais, plantas, terra, oferece a Job uma base mais sólida para o seu contraditório com Deus: torna-se porta-voz extremo e verdadeiro da terra e pede a Deus que explique um mundo que ele criou, no qual há demasiado sofrimento sem motivo. Estamos perante uma admirável reciprocidade entre Job e a natureza: a terra oferece-lhe outra evidência e mais força para o processo que tem com Deus; e Job dá voz à natureza, pedindo ao Eterno explicações quanto às pedras, aos animais, às árvores. Para quem souber escutá-la, é forte a exigência de justiça e de verdade que cada dia se eleva das plantas, dos animais, dos homens.

A presença de Job ou de alguém que interprete bem a sua figura no drama da vida é imprescindível para qualquer pessoa, comunidade, sociedade ou povo para não cair em ideologias e, depois, em regimes construídos sempre na base de raciocínios análogos aos dos ‘amigos de Job’: usam grandes ideais e mesmo o próprio Deus para oprimir os pobres e justificar a opressão.
Verdadeiros irmãos de Job são aqueles (raros) poetas e artistas que, por vocação e carisma, não têm medo de ir até ao fundo das suas questões sobre a verdade da vida, não se detendo perante a quase invencível tentação de procurar e achar consolação diversa da consolação da verdade. Quem na vida não chegar nunca a encontrar Job ou um poeta como ele amante da nua verdade (Leopardi, por exemplo), não será capaz de se libertar das ideologias; e passará a servir um qualquer ídolo de respostas simples às nossas simplicíssimas questões.

Estamos a viver uma profunda indigência de questões grandes. Habituamo-nos velozmente aos diálogos dos talk show; com isso esquecemos que nos tornámos grandes perguntando muitos ‘porquês’ aos nossos pais, e que nos tornaremos bem adultos e velhos se formos capazes de voltar aos grandes ‘porquês’ das crianças. Deus falar-nos-á de novo quando, com e como Job, soubermos interrogá-lo com questões novas capazes de o ‘acordar’.

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Um homem chamado Job/5 – O falso amor de quem defende o Senhor para se louvar a si mesmo

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 12/04/2015

logo Giobbe"Vamos para fora. Vamos pedir que passe todo este mal estar. A quem o vamos pedir? À vinha, que é toda ela uma explosão de folhas novas ao ramo da acácia com os seus rebentos de hera e erva irmãs imperatrizes que são manto estendido e potentíssimo trono"

(Mariangela Gualtieri, de Aos meus imensos mestres)

Muita gente – economistas, filósofos, intelectuais – constrói teorias para legitimar a miséria no mundo; dizem que é consequência da preguiça dos pobres, que está inscrita, talvez, nos seus genes. Põem de lado, ignoram, ridicularizam Job e os seus grandes pedidos de esclarecimento; quem tenta defender a verdade dos pobres e as suas razões vê-se rodeado por mil ‘amigos de Job’, condenado e escarnecido. Os falsos amigos de Job não são uma raça extinta: com as suas ideologias continuam a humilhar, a desprezar e condenar os pobres.

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Cuidado com os aduladores de Deus

Um homem chamado Job/5 – O falso amor de quem defende o Senhor para se louvar a si mesmo por Luigino Bruni Publicado em Avvenire 12/04/2015 "Vamos para fora. Vamos pedir que passe todo este mal estar. A quem o vamos pedir? À vinha, que é toda ela uma explosão de folhas novas ao ramo da acácia com os...
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 Um homem chamado Job/4 – O justo tem autoridade para dizer: nenhum filho merece morrer

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 05/04/2015

logo Giobbe"Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: 'Desce da cruz e creremos em ti'. Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejavas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso. Tinhas necessidade de um livre amor e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí ainda, fazias ideia demasiado alta dos homens, porque são escravos, se bem que tenham sido criados rebeldes. Vê e julga, após quinze séculos decorridos: quem elevaste até a ti? Juro-o, o homem é mais fraco e mais vil do que o pensavas. Pode ele, pode ele realizar o mesmo que tu? A grande estima que tinhas por ele fez mal à compaixão. Exigiste demasiado dele. Tu, no entanto, que o amavas mais do que a ti mesmo! Estimando-o menos, ter-lhe-ias imposto um fardo mais leve, mas em relação com teu amor. Ele é fraco e covarde"

(Fedor Dostoevskij, “O grande inquisidor”  , Os irmãos Karamàzov).

O humanismo bíblico não garante a felicidade aos justos. O maior de todos os profetas, Moisés, morre sozinho e fora da terra prometida. Para os justos deve haver algo mais verdadeiro e profundo que a busca da própria felicidade. Pedimos à vida muito mais: pedimos, sobretudo, o sentido das infelicidades, nossas e dos outros. O livro de Job está do lado de quem busca obstinadamente um sentido verdadeiro para a desilusão das grandes promessas: a desventura dos inocentes, a morte de filhas e filhos, o sofrimento das crianças.

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Depois do primeiro diálogo com Elifaz, toma agora a palavra o segundo amigo: “Bildad de Chua replicou: ‘Até quando vais falar dessa maneira? As tuas palavras são como um vendaval! Será que o Deus todo-poderoso distorce a justiça e não reconhece quem é inocente? Os teus filhos devem ter cometido faltas contra Deus e ele fê-los pagar as consequências do seu pecado’” (8,1-4). Para não pôr em discussão a justiça de Deus, Bildad é obrigado a negar a retidão de Job e filhos. Para a sua ética, abstrata e sem desumana, se os filhos (e Job) foram punidos, deviam ter pecado. A sua ideia de justiça divina e de ordem leva-o assim a condenar e a trair o homem. São muitos, porém, os filhos que morrem sem culpa alguma, ontem, hoje, sempre. Nos Alpes franceses, no Quénia, no Gólgota. Em todo o lado. Não existe nenhum pecado que exija a morte de um filho para poder ser expiado; a menos que se queira negar qualquer diferença entre Elohim e Baal, entre o SENHOR e os ídolos esfomeados.
O poema de Job é um teste à justiça de Deus, não à de Job (que nos é revelada já nas primeiras linhas do prólogo). Quem deverá demonstrar que é verdadeiramente justo, apesar da dor dos inocentes, é Elohim.

Para responder ao ‘amigo’, abrem-se para Job dois caminhos. O primeiro, que é sempre o mais simples, é admitir que não existe no mundo qualquer justiça: não há Deus, ou está muito longe para desempenhar a função de juiz justo dos homens. O segundo caminho é tentar o impensável para o seu tempo (e para os crentes de todos os tempos): pôr em questão a justiça de Deus, pedir-lhe explicações pelos seus atos. Respondendo a Bildad, Job atravessa estas duas possibilidades extremas: “Mas eu estou inocente e já não me preocupo comigo mesmo, já não tenho interesse pela vida! Por isso digo: «Tudo vale o mesmo!» Deus destrói o inocente como o culpado! Se uma desgraça repentina semeia a morte, ele ri-se do desespero do inocente. A terra fica entregue aos maus” (9,21-24). Não lhe interessa a sua vida (é gratuidade pura), mas a justiça no mundo; Job ousa assim o não-ousável, chegando a negar a possibilidade de existência de qualquer justiça divina.

Job alarga ainda mais o horizonte do humano incluído no humanismo bíblico, recebendo na sua arca os tantos que continuam a questionar se um Deus bom e justo pode existir num mundo de dor e de mal sem explicação. Job diz-nos que uma pergunta sem resposta pode ser mais religiosa que respostas demasiado simples; e que até um ‘porquê’ pode ser oração. Depois de Job não há na terra rosário mais verdadeiro que o composto por todos os ‘porquês’ desesperados sem resposta que se elevam a um céu que insistem em querer habitado e amigo. Job continua a pedir um fundamento para a terra, mais profundo que o caos e o nada. Mas para buscar e querer um Deus verdadeiro para além da aparente ‘banalidade do bem’, com a força da sua fragilidade, Job pede a Deus que responda pelos seus atos, quer um Deus responsável.

Na realidade, haveria um caminho mais simples: seguir o atalho recomendado pelos amigos, admitindo a sua culpa. Mas, por misteriosa fidelidade a si mesmo e à vida, Job não segue esta terceira via. Teria podido reconhecer que era pecador (que homem justo não tem consciência de o ser?), implorar o perdão e a misericórdia divina e salvar assim a justiça de Deus; e esperar ainda ganhar o próprio resgate. Mas não o fez e continuou a pedir explicações, a dialogar, a esperar um rosto de Deus diverso. A acreditar na própria retidão.

Uma dificuldade grande com que uma pessoa justa se pode deparar durante as longas e extenuantes provas da vida é não perder a fé na própria verdade e justiça. “Afinal não foi por bem que o fiz…”, “Fui soberbo …”, “No fundo sou um bluff …”. Mas quando as nossas culpas (que sempre existem) nos sugerem uma leitura da nossa vida que aos poucos se vai tornando a mais convincente, perdem-se todos os laços com a verdade; e perdemo-nos nós, mesmo se, por desespero diverso e menos verdadeiro pedimos perdão e imploramos a misericórdia de Deus e dos outros. Esta cedência não é humildade, é apenas a última grande tentação. Pode-se esperar salvar-se de provas semelhantes às de Job desde que a história da nossa inocência e retidão nos convença mais que a história dos nossos pecados e da nossa maldade. É a fé-fidelidade naquilo ‘tudo ... era muito bom’ (Gen 1,31) – que apesar de tudo somos e permanecemos – é essa fé-fidelidade que nos pode salvar em momentos de grandes e longas provas. A esta sua (e nossa dignidade) agarra-se também Job: “Lembra-te que me formaste como o barro” (10,9). Uma fé que inclui também os filhos, as pessoas que amamos e que um dia poderá abranger todos os seres humanos. Job continuou a acreditar na sua inocência para que nós, menos justos do que ele, pudéssemos hoje acreditar ainda na nossa.

Job, além disso, não pode crer que os filhos tinham merecido a morte. Nenhum filho merece morrer. Há na terra muita verdade e beleza porque mães e pais creem ainda, por vezes contra toda a evidência, que os filhos e filhas não são culpados. Muitas vezes nos salvámos, no passado e no presente, apenas porque uma pessoa, pelo menos, continuou a acreditar que a nossa beleza e bondade eram maiores que os nossos erros. Muito mais triste do que é, seria a terra sem os olhares de ressurreição de mães e pais!

A extrema fidelidade de Job a si mesmo impele-o depois ao ato mais subversivo. Não quer negar a justiça de Deus, mas não pode negar sequer a sua própria verdade. Da tenaz que parece esmagá-lo eis que emerge uma inesperada, impensada e impensável terceira possibilidade. Job chama a juízo o próprio Deus. O seu monte de esterco transforma-se em aula de tribunal. O imputado é Elohim, os seus advogados os amigos de Job, o inquisidor é Job: “Estou farto desta minha vida! Vou dar largas ao meu queixume, vou mostrar a amargura que me vai na alma. Peço a Deus: ‘Não me condenes; diz-me o que tens contra mim! Parece-te bem oprimires-me e desprezares-me, quando foste tu que me criaste e enquanto deixas que os maus realizem os seus planos?’” (10,1-3).

Mas – pergunta – como será possível chamar a juízo Deus, denunciá-lo, se o imputado é também o juiz? “Ele não é um homem, como eu sou, para eu lhe responder e desafiar a tribunal. Oxalá existisse alguém para arbitrar entre os dois e erguer a mão entre um e outro.” (9,32-33). Na realidade há um juiz-árbitro em todo o livro de Job: o leitor, que durante o desenrolar do drama é chamado a tomar parte, a exprimir-se por um ou pelo outro dos contendentes. Um leitor-árbitro contemporâneo de Job tê-lo-ia condenado, considerando a sua arenga um ato de soberba e de indolência. A defesa de Job cresceu com a história, com os profetas, os evangelhos, Paulo, os mártires, e depois a modernidade, os lager, o terrorismo, a eutanásia de crianças. Job é mais contemporâneo nosso do que o era relativamente ao homem do seu tempo; e sê-lo-á ainda mais nos séculos que estão para vir.

Com o ‘processo a Deus’ estamos, pois, perante uma autêntica revolução religiosa: também Deus deve prestar contas das suas ações se quer ser o fundamento da nossa justiça. Deve fazer-se entender, dizer outras palavras, além das muitas que tinha já dito. Se quer estar à altura do Deus bíblico da Aliança e da Promessa e demarcar-se dos cultos idolátricos, estúpidos como os respetivos fetiches. Encastoado no coração da Bíblia, o livro de Job conduz-nos, então, a um alto cume de onde nos convida a olhar toda a Torah, os profetas, e depois o Novo testamento, as mulheres e os homens de todos os tempos. E representa uma prova da verdade dos livros que o precedem e dos que vêm depois.

Uma outra vez foi celebrado um processo que tinha Deus como imputado. Mas as partes estavam ao contrário: o homem era o forte, quase omnipotente, que interrogava e julgava; Deus era frágil, condenado, crucificado. Entre estes dois processos extremos inscrevem-se toda a justiça, a injustiça, as esperanças do mondo. Isto Job não o sabia, não podia sabê-lo. Mas terá sido o primeiro a fazer festa pelo sepulcro vazio. Apenas os crucificados podem compreender e desejar as ressurreições. Feliz Páscoa.

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 Um homem chamado Job/4 – O justo tem autoridade para dizer: nenhum filho merece morrer

por Luigino Bruni

Publicado em Avvenire 05/04/2015

logo Giobbe"Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: 'Desce da cruz e creremos em ti'. Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejavas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso. Tinhas necessidade de um livre amor e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí ainda, fazias ideia demasiado alta dos homens, porque são escravos, se bem que tenham sido criados rebeldes. Vê e julga, após quinze séculos decorridos: quem elevaste até a ti? Juro-o, o homem é mais fraco e mais vil do que o pensavas. Pode ele, pode ele realizar o mesmo que tu? A grande estima que tinhas por ele fez mal à compaixão. Exigiste demasiado dele. Tu, no entanto, que o amavas mais do que a ti mesmo! Estimando-o menos, ter-lhe-ias imposto um fardo mais leve, mas em relação com teu amor. Ele é fraco e covarde"

(Fedor Dostoevskij, “O grande inquisidor”  , Os irmãos Karamàzov).

O humanismo bíblico não garante a felicidade aos justos. O maior de todos os profetas, Moisés, morre sozinho e fora da terra prometida. Para os justos deve haver algo mais verdadeiro e profundo que a busca da própria felicidade. Pedimos à vida muito mais: pedimos, sobretudo, o sentido das infelicidades, nossas e dos outros. O livro de Job está do lado de quem busca obstinadamente um sentido verdadeiro para a desilusão das grandes promessas: a desventura dos inocentes, a morte de filhas e filhos, o sofrimento das crianças.

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A responsabilidade de Deus

 Um homem chamado Job/4 – O justo tem autoridade para dizer: nenhum filho merece morrer por Luigino Bruni Publicado em Avvenire 05/04/2015 "Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: 'Desce da cruz e creremos em ti'. Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeita...