A fraternidade tem mãos e pés

A fraternidade tem mãos e pés

Fundar e continuar sem pressa, como um equilibrista

Publicado no Avvenire em 31/12/2017 

Por Luigino Bruni 

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Quando um gênio verdadeiramente original aparece no mundo, os homens correm para se livrar dele. Há dois métodos para conseguirem êxito. O primeiro é a opressão. Se falharem, adotam o segundo método (que é muito mais radical e obediente): a exaltação, colocam-no sobre um pedestal e o transformam em um deus".

Lu Xun, Introdução aos provérbios de Confúcio

 

Na origem de muitas comunidades e movimentos, encontra-se uma experiência de intensa e profunda proximidade, entre todos e sobretudo com os fundadores. Uma intimidade prolongada que realça e desenvolve a intimidade de cada um. É este "bem relacional" que atrai, satisfaz e fascina, não menos do que a mensagem ideal recebida e anunciada. O contato dos corações e dos corpos, a partilha na mesma mesa onde as refeições são preparadas em conjunto, os verdadeiros abraços aos "leprosos" que imediatamente se tornam verdadeiros abraços e são trocados uns com os outros quando estes regressam a casa. Experiências radicalmente “anti-imunológicas”, precisamente porque ainda não existem as muitas formas de mediação que inventamos para não tocar a "ferida do outro".

Contudo, esta fraternidade-próxima que é simples e universal é a primeira que corre o risco de desaparecer quando as comunidades são estruturadas e se tornam organizações cada vez mais complexas. Nesta transformação da natureza das relações, se instalam vários tipos de vírus que estão entre os mais desonestos e maus.

Um papel fundamental é desempenhado pela evolução das relações com os fundadores. Depois da primeira fase de fraternidade e horizontalidade, uma distância crescente entre os fundadores e os outros membros é criada, e aquela proximidade íntima da origem é progressivamente reduzida. Torna-se cada vez mais difícil vê-los no meio da comunidade, encontrá-los na rua, partilhar com eles a vida cotidiana. E assim, paradoxalmente, são os fundadores que são os primeiros a deixar a fraternidade-reciprocidade sinceramente acreditada e proclamada. Seu papel diferente e único, que todos reconhecem, gera ao seu redor uma cortina invisível, mas muito real e cada vez mais impenetrável, que produz um verdadeiro isolamento, que cresce junto e graças à admiração, ao amor sincero, à exaltação de sua pessoa.

É assim que muitas comunidades ideais são involuntariamente transformadas em organizações imunes, porque com a distância também se perde a experiência da corporeidade, do contato, do encontro humano pleno e da intimidade nos relacionamentos. Podemos falar e proclamar fraternidade e igualdade, mas se não abraçamos, discutimos e perdoamos misturando as próprias lágrimas, estamos na ideologia da fraternidade sem entrar na experiência da fraternidade. O corpo, como nos diz o humanismo bíblico, exprime a concretude, a fragilidade, a totalidade da vida, permite-nos conhecer o mistério da pessoa diante de mim aqui e agora. Se não encontro o outro no seu corpo, só vejo uma multidão indistinta, categorias e classes de pessoas, sem nunca poder "ver" João, Maria, Lucas. Eu só "encontro" um fantasma, mesmo quando é um lindo fantasma. Para o reconhecer, tenho de ser capaz de tocar nas suas feridas com as minhas próprias mãos. Aqui está o imenso significado de uma palavra que se torna carne.

Por isso, o primeiro sinal de que uma comunidade fraterna está se tornando uma organização imune é a diminuição da exposição dos responsáveis às feridas (e bênçãos) da simples fraternidade de todos.

E é assim que se afirma, dia após dia, um dos tabus mais antigos e universais: "O rei não pode ser tocado". Um tabu que surge de um desejo poderoso de algo proibido. O tabu é afirmado junto com a crescente distância do fundador, e quanto mais difícil é de "tocá-lo" mais eficaz se torna. O crescimento do mito é proporcional à diminuição de encontros, abraços, beijos aos leprosos de toda a comunidade - que, nos raros casos patológicos, podem também ser acompanhados pelo abuso dos corpos, a expressão doente do eclipse do próprio corpo real. O verdadeiro antídoto para este tabu seria, portanto, manter a intimidade e a proximidade cotidiana entre os fundadores e toda a comunidade. Não obstante, esta é precisamente a coisa mais difícil de evitar, porque os mitos alimentam-se do seu próprio ser longe da realidade - um encontro e um olhar tem seu valor pautado no quão mais distante e inalcançável o mito está (também vemos isto para os "mitos" do cinema e da música). Quanto mais difícil, mais valioso.

Estes processos crescentes de isolamento e intocabilidade têm alguns componentes inevitáveis e outros evitáveis, mas a gestão da sua parte evitável é decisiva, mesmo porque algumas dimensões evitáveis são interpretadas como inevitáveis. Entre estes, pensar que a distância e a perda da intimidade com os fundadores dependem do crescimento quantitativo da comunidade, sem perceber que os primeiros a se distanciarem são os mais próximos do fundador, porque a "distância" é principalmente de tipo sagrado e simbólico, não geográfico. O "próximo" não é o "próximo" – como o Bom Samaritano nos ensinou.

A parte realmente inevitável é uma consequência do sucesso das próprias comunidades. A consciência da singularidade e do valor da pessoa do fundador nos impele a fazer tudo o que pudermos para protegê-lo, para que ele não seja "consumido" pelas pessoas ao seu redor. Então, o crescimento e o desenvolvimento produzem necessariamente algumas formas de estruturas e de hierarquia, que por sua natureza e função são mal combinadas com as necessidades da fraternidade. Isto implica inevitavelmente no aparecimento de uma cultura da distância que se torna um tipo imunidade. Este é um paradoxo bem conhecido e que continua sendo negligenciado pelos fundadores de comunidades e movimentos carismáticos, que geralmente têm muita pressa para iniciar a fase de institucionalização de suas realidades (e mesmo quando eles estão abstratamente conscientes acreditam, iludindo-se, que sua história será especial e diferente e, portanto, não estarão sujeitos a esses problemas). Uma boa advertência para os fundadores de comunidades poderia ser resumida da seguinte forma: em vez de acelerá-la, como é espontaneamente o caso, faça tudo o que puder para retardar o processo de transformação de sua comunidade em uma organização. Move-te como um equilibrista, sem pressa. Não seja enfeitiçado pela chamada da outra extremidade da corda.

Fatores evitáveis dizem respeito diretamente aos fundadores. Em primeiro lugar, eles devem resistir com todas as forças à tentação do isolamento, especialmente quando estão prestes a começar e estão mais visíveis. Não deixem de estar presentes nas mesas onde todos comem, nas massas do povo, continuem a abraçar e a beijar os verdadeiros pobres, não apenas os que são convidados. Não caiam na armadilha invisível dos privilégios (cada vez maiores), das isenções do trabalho e dos deveres de todos - lavar louça, fazer compras, passar camisas. A fraternidade começa a se tornar ideologia quando perde o contato com as cebolas picadas e as limpezas da casa, dos banheiros; quando o desejo de "dar vida" para os irmãos não se torna "dar uma mão" na limpeza do chão.

É muito difícil para um fundador não cair nessas formas de isenções, que surgem de boas intenções, de muito amor e de uma ignorância sem culpa das consequências. É de fato a comunidade que, de boa-fé, faz tudo para isolar o seu líder. É Pedro quem não quer que Jesus lave os pés. Mas quando algum outro Pedro consegue convencer o seu mestre e assim o impede de ter uma fraternidade de mãos e pés, o grande e antigo tabu da intocabilidade do soberano torna-se a verdadeira nova regra da comunidade, dia após dia. São poucas coisas que os isolam mais dos que os próprios amigos e companheiros que, em vez de ajudar os fundadores/líderes a permanecerem iguais a todos, fazem com que se tornem cada vez mais diferentes. Todavia, aqueles que receberam um carisma de fundação comunitária são os que possuem necessidade vital de amigos honestos, que os amam tanto que os tratam como iguais, porque entendem que a melhor maneira de ajudá-los a desempenhar seu papel diferente e especial é mantê-los em relações normais e rotineiros, contradizê-los, corrigi-los, nem sempre dizer "sim", não lhes roubar a possibilidade de fraternidade.

Ao contrário de todos os impérios e empresas capitalistas de hoje (onde a intocabilidade dos líderes é uma regra comum, e onde se caminha para a autodestruição por excesso de imunidade), as comunidades e os movimentos ideais não podem permitir-se este tabu. Porque um "rei intocável" produz inevitavelmente a crise e esta, quando não solucionada, a morte da organização comunitária.

Porque se no início esta doença da imunidade atua nas relações entre os membros e sua "cabeça", logo se torna o paradigma de toda relação. Essa relacão parcial, distante, sem intimidade e sem emoções, se estende e se reproduz em todos os níveis hierárquicos, e infecta todas as relações privadas. Assim, as isenções e os privilégios se estendem a todos os diversos "líderes", e as relações apáticas e sem corpo se enraízam em toda a comunidade e se tornam cultura geral e difundida. Começa-se por não "tocar" o fundador, e continua de modo a não tocar em nenhum líder, e no fim não se tocar mais em ninguém - nem mesmo no seu interior, que se torna cada vez mais distante e pobre. Porque quando perdemos o contato com o corpo do outro - porque todas as distâncias aumentam – nos tornamos gradualmente menos capazes de sentir a vida. Para levar a sério o seu próprio limite e o dos outros, as imperfeições e pecados da história, para cultivar emoções e desejos, para desenvolver as “pietàs humanas” que só crescem na impureza da vida concreta. E nos encontramos em uma atrofia de emoções e sentimentos humanos reais, substituídos por emoções e sentimentos artificiais porque estamos "sem corpo". Não é incomum encontrar comunidades, especialmente nas gerações seguintes à fundação, que falam de solidariedade e de reciprocidade abstrata, porque as reais foram "consumidas" ao longo do tempo pela cultura sagrada da imunidade e do não-contato. O "coração de carne" precisa de corpos que cresçam na única vida que é boa e possível: a de todas as mulheres e de todos os homens que vivem aqui, "debaixo do mesmo céu". Participei de funerais onde as consagradas e as monjas, parentes do falecido, eram as menos capazes de chorar e sentir uma sincera “pietàs”.

É muito difícil derrotar esta doença comunitária, porque ela é, muitas vezes, confundida com saúde, mas não é impossível. Às vezes você pode sair do mito e perceber que está doente, ainda que o tratamento seja complicado. Precisaríamos da coragem para identificar a doença de imunidade no núcleo original do primeiro capital narrativo, porque o vírus começa a operar muito cedo na vida de seus fundadores, e por isso também se encontra nas histórias que constituem seu primeiro legado. Todavia, a "intocabilidade do rei" tornou-se ao longo do tempo uma norma tácita, tão profundamente enraizada que também impede a tangibilidade do seu capital narrativo. E assim trabalhamos os aspectos periféricos do "carisma" e da tradição, sem tocar no seu coração; e o vírus continua a agir e a se reproduzir.

A cura seria a capacidade de construir um novo capital com base na experiência pré-imune, quando todos ainda eram livres e simples. E a partir daí reler todas as outras histórias, que não são descartadas, mas que só podem ser compreendidas e amadas em sua corporeidade encarnada (levar o corpo a sério significa compreender e amar até mesmo as doenças da nossa história). E então se realizaria o verdadeiro milagre da reciprocidade no tempo e entre gerações: devolver aos nossos fundadores de hoje aquela fraternidade que lhes roubamos ontem.

 

 

 


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